Aconteceu na manhã da última quarta-feira, 25, um grande ato denominado “Especulação extermina: Basta de trevas na Luz e em São Paulo!”. A manifestação foi uma resposta da população às últimas medidas do governo de São Paulo e da prefeitura que utilizaram do poderio militar para atuar em questões de drogas (Cracolândia) e moradia (Moinho e Pinheirinho). As medidas adotadas pelos governantes foram extremamente radicais e desnecessárias, tendo causado danos, muitas vezes, irreversíveis à população envolvida.
A concentração começou às 8h da manhã na frente da Catedral da Sé, aos poucos os manifestantes foram chegando e conseguimos, literalmente, abraçar a catedral a espera do prefeito Kassab que estava numa missa em comemoração aos 458 anos de São Paulo. Ele saiu pelos fundos e nós cercamos o carro dele, alguns jogaram ovos e bolinhas de papel, até que a polícia começou a jogar spray de pimenta, bombas de gás lacrimogêneo e cassetetes contra nós. Tivemos que nos dispersar, mas logo depois voltamos para a Sé, seguimos em marcha para a Prefeitura e depois encerramos o ato na Cracolândia.
Cerca de mil pessoas fizeram o trajeto e entre os gritos de protesto que soltávamos estavam reivindicações no que diz respeito à internação compulsória, que vai totalmente de encontro à Lei 10.216 (Paulo Delgado), promulgada em 2001 e resultado da Luta Antimanicomial. A lei prevê que os usuários têm o direito de tratamento na rede substitutiva aos manicômios (CAPS, residências terapêuticas e CECCOS). O que Kassab tem feito na Cracolândia é transformar um problema de saúde pública em questão apenas de segurança. Os usuários tem sido banidos das ruas, sem nenhuma orientação ou possibilidade de tratamento em um CAPS AD (Álcool e Drogas), a maioria com violência policial que já tem soma alguns casos de óbito. O que o prefeito está fazendo é apenas para esvaziar a área central e expulsar essas pessoas para outro lugar, ou seja, higienização social.
Além disso, em dezembro passado, houve uma terrível tragédia, também na região central. A favela do Moinho sofreu um incêndio provocado que deixou milhares de famílias sem moradia e foi responsável pela morte de várias pessoas. O Moinho está no eixo da higienização, existe um projeto chamado “Operação Urbana Lapa/Brás” que visa construir um empreendimento imobiliário de “alto padrão” em toda orla ferroviária da Lapa-Brás-Mooca.
O mesmo ocorreu no Pinheirinho, área em São José dos Campos que ficou esquecida muitos anos por ser na periferia da cidade. A ocupação do terreno existe desde 1996, mas há 5 anos atrás, foi construído na frente do Pinheirinho um condomínio empresarial de luxo, o que “valorizou” a área e por isso o mercado imobiliário quer o local com tanta urgência, a ponto de promover uma verdadeira guerra para tirar os moradores (que construíram suas casas com seu dinheiro) de lá. Os detalhes em torno do Massacre do Pinheirinho são ainda mais alarmantes, pois o terreno pertencia a família alemã Kubitzky, em 1969, a família faleceu sem deixar herdeiros e o terreno passou a ser do Estado. Como ele foi parar nas mãos do libanês Naji Nahas?
As famílias do Pinheirinho, além de perderem suas casas, estão sendo separadas de seus filhos, pois as autoridades alegam que os pais não têm moradia, nem condições de criar suas próprias crianças que estão sendo levadas para adoção. O governo ofereceu também passagens para o norte e nordeste para essas pessoas que tem toda sua vida em São José dos Campos, mais uma medida que pode ser facilmente comparada ao fascismo de Mussolini.
A manifestação do dia 25 teve um papel crucial que é mostrar para os poderosos e à parcela desinformada da sociedade que não somos coniventes com a higienização social que o governo de São Paulo promoveu e pretende continuar promovendo. Existem várias outras comunidades ameaçadas de acabar como o Pinheirinho, precisamos da intervenção do governo federal para expropriar as terras ocupadas de seus donos e indenizá-los. Essa medida, além de ser mais humana, é mais barata para o Estado do que construir novas casas para essas famílias (o que também não está sendo feito). O Brasil inteiro precisa se mobilizar contra essas ações militares, antes que a moda pegue e esses fragmentos de ditadura se espalhem por todo o país. Essa é uma luta de todos.
Por Rafaela Uchoa
Confiram mais fotos do Ato no site: http://www.flickr.com/photos/rah_uchoa/sets/72157629044730061/


