Os verdadeiros loucos

Há um tabu presente na nossa realidade que tem me chamado cada vez mais a atenção. Uma coisa simples e que pode, a primeira vista soar clichê, mas não deixa de ser algo difícil de ser superado: lidar com as diferenças. As segmentações estão por toda parte. A cada dia que passa, ficamos sabendo de novos movimentos de pequenos grupos que são ou foram excluídos ao longo da nossa história. A questão fica ainda mais complexa, quando percebemos que muitos desses grupos que brigam por seus direitos, não se contentam a militância político-social e resolvem rebater a exclusão com a mesma arma. É triste perceber-se inserido nesse contexto, pregamos tanta coisa, lutamos por mudanças, mas quem e o que estamos sendo para as pessoas ao nosso redor? Vamos nos defender jogando de volta outra pedra?

Mas o principal aqui é isso; as diferenças. Por que é tão difícil aceitar algo ou alguém que não compartilha do nosso jeito de ser e pensar? Por que preferimos excluir esses grupos e nos tornar cada vez mais pobres de espíritos, em vez de incluí-los para um enriquecimento mútuo? Primeira coisa, alguém detém alguma verdade? Existe uma verdade? Por que você se acha no direito de taxar fulano disso ou daquilo? Já se olhou no espelho? Que não seja apenas para retocar a maquiagem ou fazer a barba. Minha pergunta é: Você se conhece? Acho que essas tentativas de negação e exclusão que presenciamos no nosso meio social diariamente são frutos de uma insegurança pessoal imensa. Se você se acha tão detentor da verdade, por que se sente tão ameaçado com a realidade alheia a ponto de querer exterminá-la?

O ser humano tem muitos traços em comum, principalmente pelo seu convívio em sociedade. Um desses traços é o medo do novo. Muitos de nós não sabem lidar com as rupturas com velhas estruturas e, cada pessoa tem um tipo de reação. Essa reação muitas vezes é a raiva e o desejo de isolar essas mudanças, para que não nos atinja. Pois bem, faça sua escolha. Seja a mesma pessoa a vida inteira e, quando envelhecer, olhe para trás e perceba que não aprendeu nada. Não falo de essência, o que somos de verdade por dentro não muda, carregamos para sempre. Mas existem muitos caminhos a serem percorridos e o aprendizado está justamente neles.

O nosso sistema econômico e político faz com que acreditemos que a melhor saída é realmente ignorar as diferenças e a buscar, individualmente, dinheiro e poder. Esse é o “sucesso” que eu vejo sendo proferido de várias bocas diariamente. Fulano é “bem sucedido” porque é rico, sicrano é feliz por ter poder e pisar nos outros. Acontece que, esse modelo de vida que criaram para gente é tão falho que percebemos que uma minoria quase que absoluta detém esse “sucesso”. Será que ele realmente existe? Será que esse é mesmo o melhor trajeto para seguir? A melhor essência?

Pois é esse mesmo sistema que nos torna loucos por papel, que segrega nossa sociedade em grupos de descriminados e descriminantes, ou os dois ao mesmo tempo. É esse mesmo sistema que situa um ser humano como “louco” e, portanto, desmerecedor do convívio social. Para tal atitude existe uma série de argumentos vazios e carregados de crueldade. Afinal, o que é o louco no meio de um agrupamento humano? Ele é alguém que temos que ser descrentes, alguém que nos oferece perigo. E por que encarnamos esse perigo, afinal, cadê a nossa segurança de seres absolutos que estão aptos a julgar qualquer atitude diferente da nossa como “loucura”? O louco pode ser perigoso, assim como qualquer pessoa que se aproxime de nós. São pessoas que passam ou vivem em sofrimento psíquico e que, por isso, se tornam no consciente popular uma doença. O esquizofrênico não é a esquizofrenia, o psicótico não é a psicose. Eles são, antes de tudo pessoas. Iguais a mim, iguais a você. Assim, simplesmente, pessoas. Pessoas que têm o direito de discordar de você, que partilham, assim como você, anseios e possibilidades.

O medo do louco e de tudo que é diferente é a forma mais covarde de tentar justificar a exclusão e o confinamento. O que realmente a sociedade teme são as diferenças. Ela teme aquilo que não consegue se enquadrar por inteiro num molde aprisionador e razo de relações humanas batizado de sistema econômico social. Chamamos de louco o sujeito que se expressa como quer dentro de um modelo extremamente castrador, quando, na verdade, os loucos somos nós. Nós topamos nos trancar nesse cercado de mentiras. Nós aceitamos ter que trabalhar oito horas por dia numa empresa que odiamos porque precisamos pagar o dinheiro que – nem existe – gastamos dos nossos cartões de crédito. Nós nos casamos sem nem saber o que é amor, para constituir uma família ilusória, que trairemos de todas as formas possíveis. Nós aceitamos sorrir, quando estamos extremamente irritados com alguma injustiça que nos foi feita, e assim desenvolvemos nossos cânceres e pandemias. Diante de tudo isso, você ainda acha que não está sujeito a ter um surto? E ainda bem que temos o poder de surtar e gritar diante dessa realidade atroz em que vivemos! Senão seremos nós a doença, mortos vivos que deixaram sua vida passar como um filme da “sessão da tarde”. Pois mesmo como todas as nossas esquisitices naturalmente humanas e nossa postura segmentadora estão todos buscando uma mesma coisa: a felicidade de existir, inclusive, no meio social.

Por Rafaela Uchoa

Extraído do blog: http://espectrodeilusoes.wordpress.com

“Fluídos” por Rafaela Uchoa

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