PM de São Paulo prende mais de uma centena e se recusa a dar informações

Desde o começo a PM reprimiu manifestantes e jornalistas. Rodrigo Paiva/RPCI/Folhapress
Desde o começo a PM reprimiu manifestantes e jornalistas. Rodrigo Paiva/RPCI/Folhapress

 

A Polícia Militar de São Paulo obedeceu às ordens do governador Geraldo Alckmin (PSDB) de endurecer a repressão contra os manifestantes contrários ao aumento da tarifa de transporte público em São Paulo. O ato de hoje (13), com concentração no Teatro Municipal, na região central, sequer havia começado quando ao menos 40 pessoas foram detidas e levadas para o 78º Distrito Policial, nos Jardins. Menos de quatro horas mais tarde, ao menos 180 foram levados ao DP, onde não é permitida a entrada de jornalistas – 40 foram liberados após “averiguações”.

As intenções da PM já ficaram claras quando foi montado uma espécie de centro de triagem na Praça do Patriarca, do outro lado do Viaduto do Chá, com vans para transportar os manifestantes. As pessoas são levadas para lá e qualquer possibilidade de suspeita resulta em encaminhamento à delegacia. Entre os detidos, está um repórter da revista Carta Capital. Em nota, a Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji) informou que ao jornalista foi negado o direito de saber para onde estava sendo levado. “A Abraji pede que Piero Locatelli seja posto em liberdade para que possa seguir cobrindo a manifestação e lamenta que a polícia novamente impeça o trabalho da imprensa”, diz o comunicado. Por volta de 19h ele foi liberado.

Os defensores públicos que tentaram entrar em diálogo com a PM também foram hostilizados. Segundo a defensora Daniela Skromov, os policiais se recusam a dar a identidade dos detidos e a explicar os motivos pelos quais as pessoas estão sendo levadas para a delegacia.

Depois de se deslocar pacificamente até a Praça Roosevelt, os manifestantes voltaram a ser reprimidos sem motivo, quando formaram um cordão para tentar encaminhar a marcha pela Rua Maria Antônia. Os comandantes da PM não permitiram que o ato subisse a Rua da Consolação. Em seguida, a Força Tática chegou já atirando bombas de gás lacrimogêneo e balas de borracha.

O advogado Bruno Martins Morais, que tem prestado assistência aos manifestantes detidos nas últimas semanas, informou que vai, em conjunto com o Movimento Passe Livre, registrar boletim de ocorrência contra a PM pela violência desta noite. “Completamente ridículo”, disse, ao sair do 78º DP, sobre as prisões de cidadãos pelo “porte de vinagre”.

Ontem, o Ministério Público Estadual realizou uma tentativa de mediação com a prefeitura e o governo estadual. A proposta do promotor de Habitação e Urbanismo, Maurício Ribeiro Lopes, era paralisar durante 45 dias o aumento para realizar uma discussão pública a respeito.

‘Julgamentos’

Mas as gestões de Fernando Haddad (PT) e Geraldo Alckmin (PSDB) recusaram hoje esta possibilidade. Haddad reiterou, em coletiva de imprensa na sede da prefeitura, que o reajuste não será revisto. “Vou repetir para deixar bastante claro. Não pretendo, porque o esforço que foi feito ao longo do ano para que o reajuste da tarifa fosse muito abaixo da inflação foi enorme. E ele (aumento) vai significar investir mais de R$ 600 milhões em subsídios”, disse o prefeito.

O prefeito disse que é legítima a manifestação, mas que a cidade repudia a violência. “São Paulo está acostumada às manifestações. O que a cidade não aceita é a forma violenta de se manifestar e se expressar. Com isso não compactuamos”, disse Haddad. “A renúncia à violência é o pressuposto de diálogo.”

Haddad disse que os compromissos firmados em campanha estão sendo cumpridos. “O reajuste abaixo da inflação, o Bilhete Único Mensal  e corredores e faixas exclusivas de ônibus . Ele disse que no início das manifestações “deixou as portas abertas para o diálogo e foi recusado por parte dos manifestantes”.

Alckmin disse que pelo Twitter que depredação, violência e obstrução e vias públicas não são aceitáveis. “O governo de São Paulo não vai tolerar vandalismo. O direito à livre manifestação é um princípio basilar da democracia. Assim como o direito de ir e vir e a preservação do patrimônio público.”

O ativista político Plinio de Arruda Sampaio, quarto colocado na disputa presidencial de 2010 pelo Psol, presente no início da manifestação desta quinta, declarou seu apoio. “Isso é uma beleza, uma coisa excelente, sinal de politização. Se isso acontecesse mais vezes o país seria outro, totalmente diferente, mais justo e mais correto. Queria até fazer um apelo para o governador Alckmin para ele segurar essa polícia dele. Não tem por que reprimir. O vandalismo é de um pequeno grupo que nao tem legitimidade. O grosso está protestando pacificamente, a manifestação é um direito cidadão.”

No início da noite a repórter Giuliana Vallone, da TV Folha, foi atingida no olho por uma bala de borracha disparada por policiais militares da Rota. O repórter Fábio Braga, do mesmo veículo, também foi atingido no rosto por disparos de bala de borracha no centro da cidade. Repórteres de O Estado de São Paulo também foram agredidos pela Rota.

Por volta das 21h30, o vereador Ricardo Young (PPS) esteve no distrito policial para acompanhar a situação dos manifestantes que estão detidos. Ele contou aos jornalistas que estão aglomerados do lado de fora do DP, que os jovens estão muito assustados, mas que a polícia os mantêm lá para fazer averiguações. “Apenas oito ou nove jovens levavam material danoso”, disse. “O processo de prisão foi bastante violento. Houve abuso no uso de gas lacrimogêneo, muitos jovens foram acuados em garagens. Está claro que estavam ma manifestação pela manifestação, não para praticar atos de violência.

Questionado pela reportagem sobre a que se devia uso da força, o vereador disse que esta pergunta deve ser feita a Alckmin e a Haddad. “O aparato utilizado pela polícia foi desproporcional para a natureza da manifestação. A PM tem condição de identificar quem é vandalo e quem não é. Todo ato de violência é antidemocrático. Considerando que a polícia tem monopólio do uso da força ela tem o dever de ser cuidadosa”, disse Young.

Mais tarde, o também vereador Nabil Bonduki (PT) passou pelo DP e informou que o delegado de plantão havia concordado com liberar a maior parte dos manifestantes. Ele demonstrou preocupação pelo fato de a repressão ter sido iniciada antes mesmo do ato. “Isso é grave porque significa que a polícia reprimiu o direito de reunião, manifestação e encontro, que é garantido pela Constituição. A PM, ao prender pessoas antecipadamente, atiçou uma reação. Foi um equívoco. “É um direito a manifestação acontecer”, disse, defendendo em seguida a posição de Haddad. É uma reivindicação justa, embora difícil de ser garantida. A prefeitura já subsidia em R$ 1,2 bilhão por ano o transporte público na cidade. Se não subisse esses vinte centavos, o subsídio subiria para R$ 1,8 bilhão. Veja, tudo está subindo. Não é só o ônibus. Não vejo lógica de a prefeitura ter de sustentar essa inflação quando é importante investir no sistema de transportes.”

O deputado estadual Carlos Giannazi (Psol) lamentou a violência e disse que vai protocolar um requerimento cobrando a Secretaria de Segurança Pública e a Polícia Militar. “Foi uma repressão desnecessária. Estão criminalizando um movimento social mais uma vez. Isso tem sido parte de toda a história do país. Infelizmente o Brasil tem essa tradição”, disse, atribuindo à Tropa de Choque o problema da repressão. “É um movimento que está incomodando muito o governo, inclusive em nível internacional, por isso o governo quer sufocar pela repressão policial. Mas, quanto mais o movimento é reprimido, mais ele cresce. É um movimento diferente, mais horizontal. Apesar de termos partidos participando, eles são apenas parte. Não há líderes.”

Reforço?

O ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo, disse hoje que pediu à Polícia Federal que acompanhe os protestos. Ele ofereceu ajuda ao governo do estado, e condenou os que usam a violência para expressar sua opinião. “Eu pedi para a Polícia Federal acompanhar. Eventuais crimes e atos ilícitos que ocorram, em princípio, são da órbita da polícia estadual para apurar, para investigar. O governo federal está à disposição do governo de São Paulo e de qualquer outro estado em que isso aconteça para apoiar naquilo que for solicitado”, disse o ministro.

Cardozo condenou a violência durante as manifestações. “É lamentável que ainda restem pessoas que não consigam perceber que em um Estado de Direito é legítima a manifestação; é legítimo que as pessoas expressem sua opinião, mas não é legítimo que pratiquem atos de violência, atos de vandalismo”, opinou. Até o final da noite, o governo não tinha aceito o reforço oferecido por Cardozo.

Outras prisões

No ato de terça-feira (11), 19 manifestantes que foram detidos e 13 continuam presos. Isso apesar de o MPL ter pago a fiança de dois deles – acusados de dano, desacato e lesão corporal – no valor de R$ 3 mil cada. Segundo Douglas Belome, militante do MPL que monitora a situação dos detidos, os manifestantes cuja fiança já foi paga foram levados para o presídio do Tremembé, em Taubaté (SP), na manhã de hoje, mesmo após o alvará de soltura já ter sido emitido pela justiça. Outros dois também estão lá.

A única menina entre os 13 detidos foi transferida para o presídio de Franco da Rocha. Os outros dez manifestantes, que respondem por formação de quadrilha, permanecem, segundo Belome, no 2ª Distrito Policial, no bairro do Bom Retiro. “Na delegacia, o que houve foi um leilão de boletins de ocorrência”, avalia o jovem ao falar das acusações impetradas aos colegas. “Pegaram os quebra-quebras e imputaram deliberadamente a essas pessoas. As que foram presas caíram de paraquedas. Depois de dispersarem a manifestação, foram atrás de gente para prender.”

Fonte: Rede Brasil Atual

 

 

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