Ex-internos de hospital psiquiátrico dão fôlego à economia de Carmo, no interior do estado

Interno de instituições psiquiátricas por mais de 30 anos, Luiz Carlos vive numa das casas terapêuticas de Carmo: vida nova, com direito a música e dominó na praça - Fabio Rossi / Agência O Globo
Interno de instituições psiquiátricas por mais de 30 anos, Luiz Carlos vive numa das casas terapêuticas de Carmo: vida nova, com direito a música e dominó na praça – Fabio Rossi / Agência O Globo

Dar um sorriso enquanto ouve ao fundo uma música de seu cantor predileto não é algo banal para Luiz Carlos da Silva Lima, de 59 anos. Foram mais de 30 anos vivendo em diversas instituições psiquiátricas até que, há pouco menos de dez, o Hospital Colônia Teixeira Brandão, onde esteve internado pela última vez, no município de Carmo, foi desativado. E, desde então, nunca mais ficou trancado, sem ver o mundo lá fora. Luiz Carlos foi um dos primeiros a participar de um programa conhecido como Serviço de Residências Terapêuticas, que transforma aqueles que um dia foram chamados apenas de pacientes em moradores da cidade. Em Carmo, já são 21 casas com 117 pessoas portadoras de distúrbios mentais. O curioso é que o projeto, que no início era visto por muitos com preconceito e desconfiança, hoje é motivo de comemoração até para a economia da região. Graças aos benefícios financeiros recebidos pelos participantes, aos empregos gerados para os profissionais e às visitas de pesquisadores e estudantes, a prefeitura estima que estejam sendo injetados cerca de R$ 7 milhões por ano na cidade da Região Serrana. Essa receita representa a segunda fonte de arrecadação do município.

— Essas pessoas, que estavam excluídas do convívio em sociedade, não só estão agora interagindo com a população, como tornaram-se consumidoras vorazes, estão sempre nas ruas. E como recebem um auxílio financeiro de cerca de R$ 1.200 do INSS e do programa De Volta para Casa, do governo federal, movimentaram os setores de comércio e serviços. Toda a receita que envolve o projeto com os ex-internos de hospitais psiquiátricos equivale para nós ao que geraria uma indústria — comenta o prefeito de Carmo, César Ladeira.

O projeto de residências terapêuticas existe em várias cidades do país e ganhou força a partir de 2001, quando foi sancionada uma lei federal reorientando as diretrizes do sistema psiquiátrico. Dentro dessa política, o hospital que existia num imenso terreno de uma fazenda da pequena Carmo teria mesmo que ficar no passado. A instituição, criada em 1947, teve sua história marcada por denúncias de maus tratos. Nos pavilhões, os pacientes eram divididos em baias. Agora, os galpões estão passando por obras e serão transformados em um parque de exposições de gado e cavalos, que deve ser inaugurado até novembro.

APOIO DOS TRÊS ENTES DE GOVERNO

O projeto das casas tem a colaboração dos três entes de governo. A União se encarrega da concessão do benefício financeiro aos moradores. O governo estadual é responsável pela criação de um sistema de atendimento aos usuários, para que eles mantenham uma boa qualidade de vida. Somente cuidadores são 112. Há ainda os Centros de Atenção Psicossocial (Caps), que auxiliam no suporte técnico, além de centros de convivência. As residências são alugadas com o auxílio da prefeitura.

— A estrutura montada em Carmo tem todos os elementos para que o sistema funcione e tornou-se um modelo para nós — destaca Maria Thereza Santos, gerente de Saúde Mental da Secretaria estadual de Saúde.

Desde o começo, o trabalho de implementação do projeto foi acompanhado pela promotora do Ministério Público estadual Sheila Cristina Vargas Ferreira, da Promotoria Única de Carmo. Ela conta que no início teve que lidar com as queixas de moradores que não queriam ter “malucos” como vizinhos. Mas, aos poucos, as reclamações foram substituídas pelas visitas de usuários do programa, em busca de seus direitos:

— Em muitos casos, temos que lidar com questões básicas para a cidadania, como uma certidão de nascimento. Como ficaram internados por anos e não têm qualquer referência familiar, algumas pessoas nem esse documento têm.

Não há um padrão definido para todas as casas. Tudo depende do perfil dos moradores. Luiz Carlos, por exemplo, divide a residência com outros quatro ex-internos. Três cuidadores se revezam para que haja atenção 24 horas por dia. No seu quarto, há uma TV de LED. Na última quinta-feira, por exemplo, ele foi para o centro da cidade, acompanhado da cuidadora, para comprar uma roupa para a festa que comemorou os dez anos do início do projeto no município. Em geral, o táxi é o meio de transporte preferido dos usuários, fazendo com que os taxistas tenham um carinho especial por essa clientela.

— Esse projeto das residências terapêuticas mexeu muito com a cidade. Foi bom para todo mundo. Quando não têm contato as pessoas podem ter preconceito, mas quando conhecem veem que não é nada disso. A relação hoje não é entre taxista e passageiro. É como se fossem da minha família — afirma o taxista José Antônio da Silva Rodrigues, de 53 anos.

Até bloco de carnaval foi montado pelos ex-internos, que ainda participam de oficinas de artesanato e teatro, entre outras. Uma curiosidade aconteceu tempos após o início do projeto: vizinhos resolveram criar intriga e reclamaram que alguns deles estavam indo a uma famosa casa de prostituição de um município vizinho para se divertirem. Mas a “denúncia” não ganhou eco e eles continuaram indo lá. São até hoje considerados carinhosos e bons pagadores.

PROJETO SURGIU NA ITÁLIA, NOS ANOS 70

Apesar de ainda não ter ido a Carmo, o coordenador do Laboratório de Estudos e Pesquisas em Saúde Mental e Atenção Psicossocial da Escola Nacional de Saúde Pública da Fiocruz e presidente da Associação Brasileira de Saúde Mental, Paulo Amarante, diz que as residências terapêuticas são uma experiência importante no processo conhecido como desinstitucionalização dos pacientes:

— Foi um projeto que começou na Itália, na década de 1970, e se difundiu por vários países da Europa. Lá, eles nem gostam do nome “terapêutica”. É um local de moradia, que precisa ser visto dessa forma para que não acabe tendo regras muito rígidas, o que tornaria as casas semelhantes às clínicas.

E o sorriso de Luiz Carlos mostra que Carmo está no caminho certo.

— Gosto muito de jogar dominó na praça, sou muito bom — garante ele, enquanto na vitrola toca um dos LPs de Roberto Carlos, que ele conseguiu guardar escondido durante a época em que viveu no hospital.

Fonte: O Globo

 

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