Filme encenado por pacientes da rede pública de saúde mental aborda tratamento humanizado

E se você desse a câmera na mão de usuários da rede de saúde mental e dissesse a eles que eles poderiam criar o que quisessem, qual seria o resultado? O resultado revela que eles querem ser tratados de uma forma humanizada pelos diferentes espaços de cuidado em saúde mental. Onde haja respeito, diálogo e principalmente as decisões sobre seu tratamento sejam compartilhadas.

O curta “Trajetórias de uma Crise” é uma obra de ficção baseada em fatos reais, retrata duas histórias paralelas com pessoas em sofrimento psíquico. Um dos personagens é levado ao Hospital público onde tem sua crise contida através de amarras e injeções, a sua revelia. Já a outra personagem é levada ao Centro de Atenção Psíquico Social (CAPS), local onde já estava vinculada e que propõe diferentes estratégias de acolhimento. Nesse espaço prevalece o diálogo e entendimento sobre os problemas enfrentados e participa-se de diversas atividades (oficinas de teatro, música, leitura, assembleia, convivência…) e a medicação é ministrada ante seu consentimento.

O filme nasceu com a proposta de uma oficina de vídeo voltada para os usuários e trabalhadores da rede de Saúde Mental de Guarulhos, como parte do projeto “Saúde e cultura: a construção de percursos culturais, itinerantes e imprevisíveis”, financiado pelo Ministério da Saúde e executado pela Secretaria Municipal de Saúde.

Tudo feito de forma coletiva. Frequentadores, trabalhadores do Caps – uma psicóloga, uma terapeuta ocupacional, uma socióloga – e eu que  dirige o curta nos  encontrávamos semanalmente para discutir sobre o filme. Tudo era decidido por consenso. Só o roteiro, ficamos discutindo quase dois meses. Uma ação terapêutica onde a invenção da história dos personagens dialogava com as experiências de vida de cada um. Certa vez, um dos participantes do grupo declarou: ‘Um dos dias em que a gente mais compartilhou o que a gente vive…’ Até os nomes e caracterização visual e da personalidade dos personagens eram discutidos. Esse processo, inclusive, deu mais segurança para que eles atuassem. Fizemos pequenos ensaios para a gravação, mas não havia texto: dirigíamos a gravação apenas contando como era a situação da cena e eles improvisavam, falando do seu modo.

A produção deTrajetórias de Uma Crisefortaleceu os usuários da rede de saúde mental e proporcionou a melhora da autoestima entre eles. A construção de um trabalho como esse possibilitou um importante deslocamento dessas pessoas, que saíram de uma lógica socialmente instaurada da incapacidade para uma de criatividade e atuação no mundo. Outra coisa importante foi a denúncia contida no filme sobre os maus-tratos a que elas/eles são submetidos quando chegam em crise aos Hospitais Públicos. Incluir a denúncia foi unanimidade entre eles e também um desabafo, pois a maioria já passou por isso.

A trilha sonora conta com a significativa participação de dois grupos atuantes na saúde mental. O primeiro, “Harmonia Enlouquece”, nasceu a partir do projeto “Convivendo com a Música” do Centro Psiquiátrico Rio de Janeiro, RJ. O segundo Coral Cênico Cidadãos Cantantes, existente há mais de 20 anos em São Paulo gravou a música “Dor Elegante” especialmente para o curta.

A música Pirex, de autoria do cantor Itamar Assumpção, que foi escrita a partir do encontro do cantor com o Coral Cênico Cidadãos Cantantes, também está entre as músicas que compõem o pano de fundo do curta.

Lançado no Dia Mundial da Saúde Mental, “Trajetórias de uma Crise” tem duração de 20 minutos. A estreia do filme aconteceu no dia 10 de outubro, Dia Mundial da Saúde Mental, em sessão no Cine de Direitos Humanos – Shopping Frei Caneca. A data foi significativa uma vez que a Organização Mundial da Saúde (OMS) considera a saúde mental uma prioridade e defende que esta questão não é estritamente do campo da saúde.

Confira calendário de exibição gratuita e debate

6/11 – 19h – Coletivo Digital – Rua Cônego Eugênio Leite 1117 – Pinheiros/SP

10/11 – 19h – Cine Bataglia – ETEC UFSCar – Rua Maria Cinto de Biagi, 130 – Santa Rosália Sorocaba

17/11 – 18h30 – Sindicato dos Psicólogos/SP – Rua Aimberê, 2053 – Perdizes/SP

22/11 – 18h – Teatro Heleny Guariba – Praça Roosevelt 184 – Centro/SP

26/11 – 14h – CAPS David Capistrano – Rua Salomão Gebara, 136, Vista Alegre-Campinas

Por Marcos Ribeiro

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