Estamos transformando conflitos e diferenças em doenças? Reflexões sobre a medicalização de crianças e adolescentes

” Klessyo Freire psicólogo

Confiram o texto do psicólogo e entrevistado do filme “Sem Tarja”, Klessyo Freire sobre medicalização

Medicalização é o processo no qual questões sociais complexas são individualizadas através de uma lógica reducionista que expressaria um “suposto” adoecimento do organismo por não se adequar a um padrão estabelecido pela sociedade. Um exemplo de medicalização é aquele caso típico em que temos um desejo de aprender ou fazer uma atividade nova e não temos tempo. Quando vamos conversar com um/a amigo/a, parente ou conhecido/a sobre esse desejo, ele/a nos diz frases do tipo “organiza melhor seu tempo/ quando se quer arranja tempo” sem considerar que a maior parte da população vive uma vida de sobrevivência, não estamos tendo tempo para “viver”.

            Assim, como expus no exemplo, a culpa sempre recai no individuo e fatores sociais, culturais, econômicos e relacionais são desconsiderados ou relegados a segundo plano. Os processos de medicalização têm ganhado uma força cada vez maior e têm invadido nosso dia a dia de forma avassaladora. Atualmente não ficamos mais tristes, ficamos deprimidos (um vocabulário psiquiátrico que remete a uma doença) e temos que viver um processo de felicidade constante, nem que para isso tenhamos que fazer uso de psicofármacos, manuais de viver, terapias da “felicidade” e tantos outros métodos vendidos por aí. Audous Huxley, no livro Admirável mundo novo, publicado em 1932, já nos advertia:

           A felicidade real sempre parece sórdida em comparação com as supercompensações do sofrimento. E, por certo, a estabilidade não é, nem de longe, tão espetacular como a instabilidade. E o fato de estar satisfeito nada tem a fascinação de uma boa luta contra a desgraça, nada de pitoresco de um combate contra a tentação, ou de uma derrota fatal sob os golpes da paixão ou da dúvida. A felicidade nunca é grandiosa. (2014/1932, p.266)

            Na educação os processos de medicalização têm invadem de forma avassaladora o dia a dia da escola. Em uma sociedade que produz uma escola cheia de contradições e com um enorme dificuldade em lidar com as diferenças, na qual estão presentes preconceitos de classe, de gênero, religioso, e a LGBTfobia. Dessa forma, em um ambiente escolar altamente expulsivo com os alunos que não se encaixam em um padrão estabelecido pela sociedade e reproduzido por ele são rotulados, patologizados, criminalizados, enfim…medicalizados.

            Esse processo acontece de forma violenta e excludente, sentenciando destinos e silenciando subjetividades de crianças e adolescentes. Produzimos um tipo de escola que têm contribuído sistematicamente para as constantes violação dos direitos humanos que assistimos atualmente, a exemplo do racismo, feminicídio, genocídio do povo negro e indígena, LGBTfobia e tantos outros casos presentes no dia a dia. E ainda querem retirar as discussões de gênero e sexualidade na escola e reduzir a maioridade penal, abaixo o retrocesso.

            Enfim, escrevo essa introdução para me apresentar e falar um pouco da minha história, quebrando um pouco a ordem e a formalidade exigida em alguns espaços textuais. Me chamo Klessyo Freire, sou psicólogo, pesquisador e militante contra os processos de medicalização da educação e da vida e durante aproximadamente oito anos passei por um processo de medicalização que incluiu o diagnóstico do “suposto” TDAH (Transtorno do Déficit de Atenção). Durante esse tempo fiz uso do Cloridrato de Metilfenidato e de alguns antidepressivos.

            Quando tinha 15 anos eu questionava a escola e os seus padrões, não entendia porque tinha que aprender coisas que nunca usaria na vida. Eu gostava de ler sobre história, filosofia, como o mundo funcionava e etc. e chegava na escola e via um conhecimento que não me atraia. Era me dito “aprenda isso na escola para passar no vestibular, depois você não vai precisar de nada disso”, me fazendo questionar que escola é essa que traz um tipo de conhecimento utilitarista e que só vai ser usado para passar no vestibular?

            Com isso, eu tinha enorme dificuldades com matérias exatas (principalmente matemática), não me despertava curiosidade aprender fórmulas prontas que eu não sabia como seriam usadas. Fui tetracampeão na recuperação em matemática, fui para a famosa “recu” na 8ª série, 1º, 2º e 3 º ano, bem como de outras matérias como física, química e biologia. Posso dizer que senti na pele a exclusão com aqueles que fogem a norma e não aprendem, sofrendo a exclusão de colegas e professores.

            Nesse contexto, que quando recebi o diagnóstico com 15 anos, ele veio com uma sensação de “conforto” por saber “o que eu tinha”. O problema é que o diagnóstico cola na gente feito cola, viramos TDAHs, TODs (Transtorno Opositor Desafiante), Disléxicos e etc. e silenciamos nossas angústias e questionamentos. Durante um tempo não me era permitido ficar triste porque tomava antidepressivos devido a minha oscilação de humor (depois fui perceber que muito dessa oscilação era causada pelo efeito do Cloridrato de Metilfenidato) e isso me causava um incomodo tremendo.

            Acabei por internalizar por muito tempo o “tem algo errado comigo”, de forma que acabei ficando dependente e fazendo uso abusivo do Cloridrato de Metilfenidato. O início da desconstrução desse processo de medicalização teve origem quando comecei a cursar o curso de psicologia e entrei em contato com algumas discussões. Mesmo assim, persistia o discurso de que teria alguma coisa, sustentado em muitos casos inclusive pelas análises e psicoterapias que passei.

            A desconstrução desse processo culminou na minha entrada no Fórum de Medicalização da Educação e da Sociedade, quando comecei a militar contra os processos de medicalização, principalmente na escola. Atualmente, além do Fórum, eu tenho pesquisado e estudado os processos de medicalização, principalmente na escola e na saúde mental. A minha saída para isso tudo foi através do coletivo e da militância política.

            Dessa forma, eu aconselho aos pais e educadores/as de que se o/a filho/a ou o/a aluno/a de vocês receberem algum rótulo ou diagnóstico procurem ver a história de muitos desses “supostos” transtornos e as controvérsias e polêmicas subjacentes a eles, a exemplo do TDAH. A ciência não é neutra e em muitos casos, responde a interesses econômicos como a indústria farmacêutica, que está intrinsicamente aos processos de medicalização e a produção de muitos desses “supostos” transtornos. A diferença não pode ser tratada como doença, vamos ver o tipo de sociedade que estamos produzindo e as relações opressivas dela que a escola têm reproduzido sistematicamente.

Portanto, encerro esse texto dizendo que acredito na educação como um espaço de potência e capaz de fazer frente às constantes violações dos direitos humanos (os processos de medicalização estão incluídos ai também) que assistimos no dia a dia. Como foi dito acima na poesia que escrevi acima, “onde existe opressão têm resistência”. Se a lógica da medicalização é individualizar, vamos subverter a ordem e coletivizar e tornar essa luta política, fazendo frente a muitos desses processos que estão presentes no dia a dia e nas políticas públicas.

Como dizia Raul Seixas no trecho da música carimbador maluco exposto abaixo, o preço a ser pago pela rotulo é grande.

“Tem que ser selado, registrado, carimbado

Avaliado e rotulado se quiser voar!!

Se quiser voar

Pra lua, a taxa é alta

Pro sol, identidade,

Vai já pro seu foguete viajar pelo universo

É preciso o meu carimbo dando, sim sim sim sim”

            Vamos lutar para que as pessoas possam voar e ir a lua sem carimbos, rótulos e sem pagar as altas taxas que lhe são exigidas. Por uma sociedade sem rótulos e que respeite as diferenças.

*Por Klessyo Freire, psicólogo, pesquisador, militante contra os processos de medicalização da educação e da vida e entrevistado do filme Sem Tarja.

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