Mais de 100 pessoas saem de manicômios para viver em residências na zona leste em São Paulo

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Noventa pessoas iniciaram a partir desse final de 2016 um novo ciclo em suas vidas. São os moradores dos dez serviços de Residência Terapêutica (SRT) implantados pela atual gestão, para receber quem ficou por décadas internado em hospitais psiquiátricos e manicômios pelo interior do Estado. Até 2012 havia três em funcionamento na Coordenadoria Regional de Saúde Leste (CRSL), hoje são 13 nos sete distritos.

No próximo dia 27 serão recebidos os 13 futuros residentes – hoje ainda internados nos hospitais psiquiátricos de Sorocaba e Piedade – das SRTs de Itaquera, São Mateus e São Miguel. Essa semana, as casas receberam 25 egressos do Hospital Psiquiátrico Santa Cruz e clínica psiquiátrica, ambas em Santo do Pirapora.

Ao cruzar o portão que separou suas vidas da comunidade, nenhum olhar para o passado, nenhuma lágrima, pelo contrário, alegria no rosto e ansiedade de chegar ao novo lugar. Liliane Nogueira, agora moradora da SRT São Miguel 1, não parou um só instante de cantar, puxar assunto e falar da “amiga” Rosalina, personagem que ora inspirava medo e ora desdém. Ao olhar pelo vidro do carro, ela indaga: “é uma lagoa suja?”, referindo-se ao rio Tietê

Nos dois veículos da CRSL e da SES, com técnicos da gestão municipal, Estado e da Associação Padre Moreira, OSS que gerencia as SRTs e Caps em São Mateus, São Miguel e Itaquera, eles viajaram trazendo pouca bagagem, alguma lembrança e um sorriso de gratidão por estar deixando na poeira sofrimentos.

Ao chegar em suas residências, uma sucessão de sorrisos mesclada a estranheza de um lugar onde agora tem seus pertences. “Essa cama é só minha”, perguntava a Cleonice, que ficou por vários anos no hospital mesmo após ter tido alta médica. A família não apareceu para busca-la. Do limão Cleonice fez uma limonada, ela passou a trabalhar no Hospital Psiquiátrico Santa Cruz. Em seu prontuário há o pedido de demissão. “Estou muito feliz aqui, a casa é linda”, comemora Cleonice.

Cidinha também não contém a felicidade do novo espaço que a acolheu. Foi internada jovem, segundo ela, pelo pai alcoólatra. “Perdi minha mãe…apanhava muito do meu pai. Ele era ruim”, conta com dificuldade, sem abandonar o sorriso e a gratidão de estar perto de sua amiga, Carminha, deficiente visual, que teve as duas pernas amputadas, mas segue encantando com o vozeirão de Coral.

Essas e outras histórias serão conhecidas do mundo fora do manicômio. É na comunidade onde começa a nascer uma nova experiência para esses homens e mulheres, que a partir de agora começarão a escrever.

O processo de desinstitucionalização iniciou ainda no primeiro semestre com visitas e entrevistas dos técnicos da Saúde Mental da Secretaria Municipal de Saúde, CRSs, supervisões e das organizações sociais de saúde (OSS) Santa Marcelina e Associação Padre Moreira aos pacientes nos hospitais e clínicas psiquiátricas.

Em todas as residências, os egressos foram recebidos pela coordenadora Regional de Saúde Leste, Claudia Afonso, a interlocutora de Saúde Mental, Paulete Secco Zular, supervisores técnicas de saúde, Raquel D´Elia (Itaquera), Eliete Fávaro (São Miguel) e Roberto Madeira (São Mateus) e equipe da Saúde Mental. Na RT Itaquera até um bolo foi feito por um dos moradores para receber os novos amigos.

Conviência

Para auxiliar nessa convivência, cada SRT conta com três acompanhantes diurnos e três noturnos, um técnico de enfermagem, um auxiliar de enfermagem, além do coordenador da residência. Compete à equipe estimular o convívio, o diálogo, cuidar da alimentação, dos cuidados pessoais e de apoio ao atendimento de saúde, que será no CAPS e nos serviços de referência do território, onde está localizada a unidade.

As residências terapêuticas são um importante incremento para a Rede de Atenção Psicossocial (RAPS), ampliada expressivamente a partir de 2013. De três residências terapêuticas (Ermelino Matarazzo, Itaquera e Itaim Paulista) até 2012, que abrigam 24 pessoas, agora a Leste conta com 13 SRTs, o que significa 114 pessoas desinstitucionalizadas residindo em comunidade.

Reclassificação dos CAPS

Outra importante medida para fortalecer esse apoio, criar uma Rede de Atenção Psicossocial foi a reclassificação dos quatro Centros de Atenção Psicossocial, que passaram a atender 24h, totalizando a oferta de 33 leitos de hospitalidade noturna. Hoje há 37 equipamentos na saúde mental da Leste e o Programa De Braços Abertos, implantado em Cidade Tiradentes, é responsável pela captação e o acompanhamento de mais de 300 pessoas em situação de rua desde 2015.

Humanização

Com a implantação da RAPS – Rede de Atenção Psicossocial, que cria a atenção desde a UBS até a residência terapêutica, a ampliação dos serviços de Caps II para Caps III, que permite a hospitalidade noturna para casos de maior sofrimento, a implantação da Residência Médica em Psiquiatria, o Programa De Braços Abertos, a reserva de 10% dos leitos em hospitais gerais para saúde mental, “melhorou a capacidade de atender”, comemora Paulete Secco Azular, interlocutora de Saúde Mental da CRSL.

A coordenadora da CRSL, Claudia Afonso, ressalta que os investimentos em “sete unidades de Caps Adulto (um em cada Subprefeitura), seis unidades de Caps Infantil, seis de Caps Álcool e Drogas (AD), quatro Centros de Convivência (Cecco), 13 residências terapêuticas (RT) e uma Unidade de Acolhimento (UA AD) em Ermelino Matarazzo, possibilitaram qualificar o atendimento, o acompanhamento de uma média de 6 mil pessoas”.

Leitos em hospitais gerais

A implementação da Lei Federal 10.216 que trata da Reforma Psiquiátrica, encerrou de vez a participação dos hospitais Nossa Senhora do Caminho (144 leitos), Nossa S. de Fátima (140 leitos), São João de Deus (130 leitos) na rede de cuidados. Por outro lado, houve a abertura de 113 leitos em hospitais gerais; 18 leitos no Hospital Municipal de Ermelino Matarazzo, 29 no Hospital Municipal Tide Setúbal (São Miguel), 24 no Hospital Geral de Guaianases, 10 no Hospital Municipal Cidade Tiradentes, 15 no Hospital Waldomiro de Paula (Itaquera) e 17 no Hospital Santa Marcelina do Itaim Paulista, para tratar as pessoas em situações agudas como seres humanos.

Serviço:
Novas SRTs entre 2013-2016

Gestão compartilhada com a APS Santa Marcelina

SRT Itaim Paulista – Rua Barena, 289

SRT Cidade Tiradentes – Rua Ricardo da Costa, 261

SRT Guaianases I – Rua Comandante Carlos Ruhl, 186

SRT Guaianases II – Rua Serra do Mar, 234

SRT Guaianases III – Rua Serra do Mar, 60

Gestão compartilhada com a Associação Padre Moreira

SRT São Mateus I – Rua Joaquim Gouveia Franco, 899

SRT São Mateus II – Rua Dr. Manso Sayão Filho, 582

SRT São Miguel I – Rua Evangelina Ferreira Destro, 193

SRT São Miguel II – Rua Taiuvinha, 215 – Vila Jacuí

SRT Itaquera – Rua Marcondes Homem de Melo, 597 – Jd Nossa Senhora do Carmo

SRTs existentes até 2013

SRT Itaim Paulista (masculina) – Rua Cembira, 954
Tel. 2035-5891

SRT Itaquera (feminina) – Rua Fontoura Xavier, 1.433
Tel. 2056-3050

SRT Ermelino Matarazzo (masculina) – Rua Victoria Semionato, 538
Tel.: 2214-1442

Fonte: Portal da Prefeitura de São Paulo

 

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