Filme sobre Os Insênicos já tem o trailer disponível

O curta-metragem “Os Insênicos”, dirigido por Rafaela Uchoa, conta a história do grupo de teatro baiano de mesmo nome do filme. O documentário narra através da vida de uma das integrantes, a atriz e militante Helisleide Bonfim, um pouco da trajetória dos “Insênicos”. O grupo, que já tem seis anos na estrada, é liderado pela atriz e psicóloga Renata Berenstein e formado por atores com transtornos mentais.

O filme será exibido em breve em mostras e festivais. Por enquanto, confiram o trailer:

SINOPSE

Dos manicômios aos palcos da vida, Os Insênicos reinventam a loucura através da arte. Formado por dezesseis atores portadores de transtornos psíquicos, o grupo de teatro já tem seis anos de existência e está na sua quarta montagem. Helisleide é uma das atrizes do grupo que teve sua vida totalmente transformada pelo teatro, através da história dela o espectador conhecerá Os Insênicos.

Direção: Rafaela Uchoa
Roteiro: Márcia Luiza Araújo e Rafaela Uchoa
Edição: Márcia Luiza Araújo
Câmeras: Jayne deAna Rafaela Uchoa Zélia Uchoa
Imagens Balada de Amor :Glauco Barboza e Rafaela Uchoa
Imagens Os Insenicos: Davi Ramos
Trilha sonora: Boing e Rebeca Matta
Finalização: Gabriel Barretto
Projeto Gráfico: Bárbara Gesteira Manuela Gomes
Músicas: Populations (Rebeca Matta e Ronei Jorge)
Juninho Costa – Guitarra
João Meirelles – Programação Eletrônica
Emanuel Venancio – Bateria
Cadinho Almeida – Baixo
Yô, yô. Yô, yô, yô, yô. (Boing)
Boing – Produção musical

Os Insênicos é formado por:
Anderly da Cruz
Angelita Leite
Antoniel Damásio
Diana Paiva
Dionaldo de Andrade
Gilvanélio Araújo
Girlene Almeida
Helisleide Bonfim
Josuelinton Santos
Lívia Souza
Maria de Fátima Francisca
Raimundo dos Santos
Renata Berenstein
Sonia Ferreira

Não percam o evento “Saúde mental e atenção psicossocial em emergências humanitárias”

crp

Na próxima segunda-feira, 31, acontecerá em São Paulo, o encontro “Saúde mental e atenção psicossocial em emergências humanitárias”. O evento congrega diversos atores envolvidos com a temática, como pesquisadores, profissionais que atuam na área, pessoas afetadas por impactos de desastres, muitas vezes potencializados pela falta de gestão de riscos ou de políticas públicas eficientes para eliminar ou minimizar seus efeitos.

Evento gratuito e com transmissão online!
Acesse: http://www.crpsp.org.br/emergenciasedesastres/inscricoes.aspx e faça sua inscrição!

Relatório alertava governo de SP sobre tortura em manicômio que teve motim e fuga

Há exatamente um ano, uma equipe do MNPCT (Mecanismo Nacional de Prevenção e Combate à Tortura) analisou o Hospital de Custódia e Tratamento Psiquiátrico de Franco da Rocha, o antigo Manicômio Judiciário da Grande São Paulo, que teve motim e fuga de 55 internos na tarde da última segunda-feira (17). Até a divulgação desta reportagem, 51 haviam sido encontrados e internados novamente. Desde o ano passado, a SAP (Secretaria da Administração Penitenciária) tem ciência de que foi relatado indícios de tortura, bem como de tratamentos ou penas cruéis, desumanas ou degradantes” no local, recebendo diversas recomendações para melhora do ambiente.

A visita teve caráter sigiloso, de modo que nem a direção, nem as pessoas privadas de liberdade sabiam que membros do MNPCT iriam ao local. A equipe foi recebida pelo diretor da unidade, Luiz Henrique Negrão, que não colocou nenhum obstáculo no trabalho do mecanismo.

O relatório aponta que a unidade foi escolhida para ser analisada “pelo histórico de denúncias de agressões e maus-tratos acumulado”, além da “importância de ser abordada a problemática da aplicação de medidas de segurança, especialmente nos chamados manicômios judiciários”.

Durante a visita, os internos permaneciam nos pátios das colônias conversando, limpando os quartos, organizando seus pertences, lavando louça ou roupa, entre outras atividades. Para os membros do MNPCT, isso revelou, de cara, “uma rotina sem atividades terapêuticas coletivas, de lazer e voltadas para o meio externo à instituição. O aspecto asilar e mortificador do espaço físico atinge os pacientes, cronificando-as(os) pela ausência de perspectiva de tratamento e de desinstitucionalização“.

Segundo os registros da unidade, os trabalhos desenvolvidos pelos setores de psicologia e assistência social da instituição não se articulam com serviços da rede pública existentes e nem apontam para a construção de um projeto terapêutico vinculado aos interesses dos pacientes em relação à sua vida depois da internação. “O acompanhamento técnico é notavelmente insuficiente diante das necessidades das pessoas internadas. Os profissionais de saúde concentravam-se, sobretudo, nas “clínicas”, mesmo local onde anteriormente se localizavam as “salas de isolamento”, conforme informado pela direção”, relata a análise.

“Embora tenhamos conhecido as salas de acompanhamento psicológico, social e de terapia ocupacional, notamos que nenhum atendimento estava sendo realizado durante a visita”, complementa. A este respeito, a própria direção da unidade assumiu a necessidade de que fossem contratados mais terapeutas ocupacionais para compor a equipe técnica da instituição.

Também durante a visita, foi possível observar a presença de Agentes de Segurança Penitenciária (ASP) no convívio com os pacientes a todo o momento, seja no pátio ou nos pavilhões que servem de dormitório.

“Ainda que alguns profissionais de segurança se empenhem em tratar os pacientes com dignidade, falta-lhes formação e experiência técnica para desempenhar um papel que fosse efetivamente terapêutico. A presença dos ASPs em todos os espaços da unidade revela a dimensão disciplinadora no cotidiano da instituição”, aponta o relatório.

De acordo com a análise, o “carácter disciplinador hegemônico” do local “contraria a definição legal de que a pessoa com transtorno mental seja tratada com humanidade e respeito e no interesse exclusivo de beneficiar sua saúde, visando alcançar sua recuperação pela inserção na família, no trabalho e na comunidade”.

O MNPCT afirma, ainda, que recebeu inúmeros relatos de agressões cometidas por funcionários da instituição, tanto os ligados à segurança da unidade quanto os da área de saúde. “Agressões verbais, humilhações, espancamentos, uso da contenção como punição e como rotina institucional fazem parte do tratamento violador dispensado aos pacientes”.

As considerações finais da visita ao Hospital de Custódia e Tratamento Psiquiátrico é de que “os aspectos observados dialogam com o que há muito é apontado por diversas organizações, entidades e movimentos de saúde mental e direitos humanos sobre os chamados manicômios judiciários. Tais instituições, longe de oferecem tratamento a pessoas com transtorno metal que se envolveram em situações criminais, são marcadamente manicomiais, desrespeitando a legislação vigente e as diretrizes da saúde mental. Sobretudo,são instituições que violam sistematicamente os direitos humanos das pessoas internadas, sendo, inclusive, palcos freqüentes de tortura e outros tratamentos ou penas cruéis, desumanos ou degradantes. As condições institucionais, nesse sentido, implicam na destituição de qualquer possibilidade terapêutica”.

Assim, a sugestão é de que sejam oferecidas “condições de respeito aos direitos e à dignidade das pessoas internadas na unidade, construir um serviço de atendimento à pessoa com transtorno mental em conflito com a lei de acordo com a legislação vigente e com as normativas internacionais, prevenir os maus tratos e a tortura, bem como oferecer condições de desinstitucionalização e retorno ao convívio livre e coletivo para aqueles que estão institucionalizados”.

Catarina Pedroso, perita do MNPCT e que participou da visita técnica, afirmou à Ponte Jornalismo que percebeu que a situação do local “é de violação dos direitos das pessoas privadas de liberdade”: “As pessoas encontram-se sem o devido acompanhamento terapêutico e, ao mesmo tempo, submetidas à lógica da disciplina prisional, o que agrava sua condição de sofrimento psíquico”, disse.

A perita afirmou que foi possível “observar as práticas institucionais, que incluíam o uso rotineiro de contenção mecânica e química, inclusive como forma de punição, e agressões às pessoas privadas de liberdade”. Ainda de acordo com ela, “na unidade, o que se vê são vidas impedidas de serem desfrutadas, pela institucionalização e pelas violações que lhes são impostas. O ambiente é mortífero, pois, de fato, não há possibilidade de se levar uma vida com dignidade em um espaço prisional e manicomial”.

De acordo com a legislação e as normativas nacionais e internacionais, as pessoas com transtorno mental devem ser tratadas com dignidade e acompanhadas em serviços da Rede de Atenção Psicossocial. “No entanto, o que encontramos foi um ambiente asilar, extremamente degradante, em que as pessoas não tinham uma perspectiva de desinstitucionalização, que deveria acontecer através do contato com familiares e com os serviços da rede de saúde mental da região”, complementa Catarina.

O local

O HCTP (Hospital de Custódia e Tratamento Psiquiátrico “Professor André Teixeira Lima”) é uma instituição voltada ao cumprimento de medidas de segurança para pessoas que, a despeito de terem cometido algum crime, foram consideradas inimputáveis por apresentarem transtorno mental no momento do ato ilícito. A unidade é, portanto, vinculada à Secretaria de Administração Penitenciária (SAP) do Estado de São Paulo, apesar de um de seus objetivos centrais ser a promoção de tratamento para as pessoas privadas de sua liberdade

Construído no início do século XX, o local localiza-se na borda da região metropolitana de São Paulo e que guarda as características de um manicômio tradicional. “É importante destacar que o município de Franco da Rocha é marcado pela presença histórica de instituições de privação de liberdade: além de dois HCTPs, há ainda outras cinco unidades prisionais, uma unidade da Fundação Casa e o Hospital Psiquiátrico Juqueri, inaugurado no final do século XIX, abrigando uma enorme quantidade de pessoas”, afirma o relatório.

De acordo com o “Censo” populacional realizado pela própria instituição sobre as pessoas internadas no HCTP até dezembro de 2014 (foram analisadas 401 pessoas das S72 que lá estavam):

• 62% tinham entre 18 e 40 anos, 33% entre 41 e 59 anos e 5%, acima de 60 anos, configurando um público majoritário relativamente jovem;

• 75% estavam internados entre zero e cinco anos na unidade, 21% entre cinco e dez anos, 2% estavam na unidade entre 10 e 15 anos e, por fim, aproximadamente 1% há mais de 15 anos.

• quase a metade (45%) tem respaldo familiar presente, enquanto 33% têm respaldo relativo e 22% ausente.

• a maior parte (54%) tem vínculos familiares no interior, enquanto 7% têm vínculos em outros estados. No entanto, 38% têm vínculos na grande São Paulo.

De acordo com a análise, os perfis mostram que, dentre os pacientes, muitos poderiam manter contato permanente com seus familiares, assim como poderiam utilizar serviços públicos próximos a suas regiões de origem. “Ademais, o fato de a população ter majoritariamente entre 18 e 40 anos aponta uma perspectiva importante de construção de projetos de vida após a desinstitucionalização”.

Outro lado

O governador Geraldo Alckmin (PSDB) afirmou em coletiva de imprensa que a rebelião ocorreu porque os internos souberam que cinco pessoas do local seriam transferidas para outros presídios.

Procurada desde a tarde desta terça-feira (18/10), a SAP (Secretaria da Administração Penitenciária) não se posicionou sobre o relatório até a divulgação desta reportagem.

Fonte: Ponte.org

 

O poder da psiquiatria

O que está por trás do DSM-5 e sua tentativa de transformar a experiência do sofrimento em patologia a ser tratada

Quando confrontados a categorias como “saúde”, “doença”, “normal” e “patológico”, a maioria dos psiquiatras atuais tenderá a aceitar que tais definições são, basicamente, objetos de um “discurso científico”. Isso significa, grosso modo, que a pretensa objetividade de suas distinções deve estar assegurada por um discurso que privilegia fenômenos mensuráveis, quantificáveis e claramente diferenciáveis através de um conjunto finito e operacional de caraterísticas de base. Esta seria a melhor maneira de impedir que tais metaconceitos fossem tragados por uma interminável discussão ideológica, com suas querelas sem fim de escolas a respeito da natureza do que orienta nossa atividade na clínica do sofrimento psíquico.

Foi com essa crença em vista que a psiquiatria dos últimos quarenta anos desenvolveu um dos mais impressionantes esforços de classificação de doenças e homogeneização de diagnósticos que se tem notícia. Desde o advento do DSM-3, a psiquiatria teria, enfim, encontrado o caminho em direção a sua segurança ontológica, deixando para trás décadas de imprecisão. Uma imprecisão que seria fruto do uso de vocabulários extremamente valorativos, em vez de meramente descritivos, assim como da fascinação por etiologias fantasistas. Pois, ao invés de se preocupar com a definição de causas dificilmente observáveis (como, por exemplo, afirmar que certa fobia de animal é resultado de conflitos inconscientes com a figura paterna), melhor seria privilegiar um pensamento categorial que organiza distinções a partir de uma certa lógica de conjuntos no qual o esforço clínico fundamental consiste em definir sintomas e condições que, se colocados em relação, podem individualizar um comportamento patológico. Desta forma, nasceria o milagre de um saber, para além de disputas teóricas, observável, imune aos juízos subjetivos do médico-observador e, acima de tudo, eficaz.

Esta história da marcha irresistível da psiquiatria em direção à ciência é normalmente contada em tons edificantes. A partir do início dos anos 1970, vários psiquiatras começaram a fazer testes, demonstrando a incrível variação de diagnósticos entre os profissionais. Por outro lado, a própria psiquiatria era bombardeada de todos os lados por aqueles irresponsáveis que tentavam demonstrar que categorias clínicas eram mitos ou, no mais das vezes, mecanismos de exclusão e controle social. Neste ambiente hostil, psiquiatras como Robert Spitzer e John Feighner teriam sido capazes de tirar a psiquiatria da defensiva por meio de uma profunda reforma metodológica que, em um curto espaço de tempo, modificou radicalmente o que entendíamos até então por “clínica”.

Pois tal reforma metodológica teria sido acompanhada pelo desenvolvimento exponencial do saber neurológico, assim como do desenvolvimento de medicamentos capazes de combater com eficácia aquilo que, erroneamente, entendíamos fluidamente por “impasses existenciais” capazes de afetar nossa performance no trabalho, nossos papéis sociais e nossa autonomia do desejo. A clínica aparecerá, então, cada vez mais submetida a uma farmacologia em vias irresistíveis de aprimoramento. Neste sentido, não haveria razão alguma para se inquietar do fato de que por volta de 70% dos experts que trabalharam para o DSM-5 terem, em sua carreira recente, vínculos financeiros com a indústria farmacêutica. A comunidade entre indústria farmacêutica e comunidade psiquiátrica seria exclusivamente fundada nas promessas abertas pelo progresso da ciência.

Também não haveria razão alguma para se perguntar se não haveria uma articulação perversa entre o fechamento dos asilos, a redução dos gastos públicos em saúde mental e um triplo processo de reforço da posição da psiquiatria. Processo triplo marcado pela medicalização, pela institucionalização crescente das discussões através da hegemonia da American Psychiatry Association (APA) e pela tecnicização crescente dos diagnósticos.

Doença e política

Tudo isso poderia interessar apenas à uma comunidade limitada, composta por todos aqueles profissionais designados para tratar de problemas de saúde mental (psicólogos, psiquiatras, psicanalistas, entre outros). Mas talvez seja o caso de colocar algumas questões. Pois, e se categorias como “saúde”, “doença”, “normal” e “patológico”, principalmente quando aplicadas ao sofrimento psíquico, não forem meros conceitos de um discurso científico, mas definições carregadas de forte potência política?  Por um lado, uma sociedade organiza seus modos de intervenção nas populações, nos corpos e nos afetos por meio da definição do campo das doenças e das patologias. No interior desses modos de intervenção, não é apenas a experiência subjetiva do sofrimento do paciente que orienta a clínica, mas também padrões esperados de conduta social de forte conotação moral (ou mesmo estética e política). Por exemplo, quando o DSM-4 descrevia o transtorno de personalidade narcísica, ele não temia descrever tal transtorno, apelando, entre outras coisas, para quadros morais do tipo: “Eles esperam ser adulados e ficam desconcertados ou furiosos quando isto não ocorre. Eles podem, por exemplo, pensar que não precisam esperar na fila, que suas prioridades são tão importantes que os outros lhes deveriam mostrar deferência e ficam irritados quando os outros deixam de auxiliar em ‘seu trabalho muito importante’”. O mínimo que se pode dizer é que tal quadro nada diz sobre o sofrimento psíquico, mas diz muito a respeito dos padrões disciplinares e morais que nossa sociedade tenta elevar à condição de normalidade médica.

Exemplo ainda mais caricato são os oito critérios fornecidos para definir o transtorno de personalidade histriônica: 1) desconforto em situações nas quais não se é o centro das atenções; 2) comportamento inadequado, sexualmente provocante ou sedutor; 3) superficialidade na expressão das emoções; 4) constante utilização da aparência física para chamar a atenção sobre si próprio; 5) discurso excessivamente impressionista; 6) teatralidade e expressão emocional exagerada; 7) ser facilmente sugestionável; 8 ) considerar os relacionamentos mais íntimos do que realmente são. Em um manual que se vangloriava pela clareza de seus “critérios específicos”, impressiona exatamente a falta de especificidade de um quadro clínico tão amplo que poderia englobar praticamente qualquer pessoa com o mínimo de senso de autocrítica. Há de se perguntar se estamos diante de uma falha ou da exposição sintomática de uma lógica que perpassa, em maior ou menor grau, todo o poder psiquiátrico atual com sua tendência muda, como vemos no texto de Gilson Ianinni e Antonio Teixeira,  de “psiquiatrização da vida cotidiana”.

Se nos perguntarmos sobre a natureza de tal lógica, valeria a pena lembrar como a experiência da doença, ou seja, a experiência de se compreender como doente, não é apenas o resultado da descrição de variações em marcadores biológicos específicos. Nem é a doença a mera definição de situações de sofrimento. Há várias experiências de sofrimento que não vivenciamos como doença, mas como conflitos relativamente naturais em processos globais de transformação e de desenvolvimento. Na verdade, há uma dimensão na qual estar doente, no que diz respeito à saúde mental, aparece como o sofrimento advindo da limitação na capacidade de ação e da fixidez em certos comportamentos. O que não poderia ser diferente se aceitarmos que estar doente é, a princípio, assumir uma identidade com forte força performativa. Ao compreender-se como “neurótico”, “depressivo” ou portador de “transtorno de personalidade borderline”, o sujeito nomeia a si através de um ato de fala capaz de produzir performativamente efeitos novos, de ampliar impossibilidades e restrições. Uma patologia mental não descreve uma espécie natural (natural kind), como talvez seja o caso de uma doença orgânica, como câncer ou mal de Parkinson. Como nos lembra Ian Hacking, ela cria performativamente uma nova situação na qual os sujeitos se veem inseridos.

Neste sentido, há de se perguntar o que está por trás dessa tendência de psiquiatrização da vida cotidiana levada a cabo pelo DSM-5. Tendência que realiza uma progressão presente na própria base dos DSMs. A partir de agora, o número de patologias mentais se eleva a 450 categorias diagnósticas. Elas eram 265 no DSM-3, lançado em 1980, e 182 no DSM-2, de 1968.

De fato, com modificações, como as que diminuem o luto patológico de dois meses para 15 dias ou que cria categorias bisonhas como o transtorno disruptivo de desregulação de humor, o vício comportamental (behavioral addiction) ou o transtorno generalizado de ansiedade, dificilmente alguém que passa por conflitos psíquicos e períodos de incerteza entrará em um consultório psiquiátrico sem um diagnóstico e uma receita médica.

Por trás desta estratégia clínica, com sua negação de perspectivas etiológicas, há a tentativa equivocada de transformar toda experiência de sofrimento em uma patologia a ser tratada. Mas uma vida na qual todo sofrimento é sintoma a ser extirpado é uma vida dependente de maneira compulsiva da voz segura do especialista, restrita a um padrão de normalidade que não é outra coisa que a internalização desesperada de uma normatividade disciplinar decidida em laboratório. Ou seja, uma vida cada vez mais enfraquecida e incapaz de lidar com conflitos, contradições e reconfigurações necessárias. Há de se perguntar se tal enfraquecimento não será, ao final, o resultado social dessas modificações no campo da saúde mental patrocinadas pelo DSM. Há de se perguntar também a quem tal situação interessa.

Por Vladimir Safatle, professor livre-docente no Departamento de Filosofia da USP

 

 

Exaustos-e-correndo-e-dopados

Nos achamos tão livres como donos de tablets e celulares, vamos a qualquer lugar na internet, lutamos pelas causas mesmo de países do outro lado do planeta, participamos de protestos globais e mal percebemos que criamos uma pós-submissão. Ou um tipo mais perigoso e insidioso de submissão. Temos nos esforçado livremente e com grande afinco para alcançar a meta de trabalhar 24X7. Vinte e quatro horas por sete dias da semana. Nenhum capitalista havia sonhado tanto. O chefe nos alcança em qualquer lugar, a qualquer hora. O expediente nunca mais acaba. Já não há espaço de trabalho e espaço de lazer, não há nem mesmo casa. Tudo se confunde. A internet foi usada para borrar as fronteiras também do mundo interno, que agora é um fora. Estamos sempre, de algum modo, trabalhando, fazendo networking, debatendo (ou brigando), intervindo, tentando não perder nada, principalmente a notícia ordinária. Consumimo-nos animadamente, ao ritmo de emoticons. E, assim, perdemos só a alma. E alcançamos uma façanha inédita: ser senhor e escravo ao mesmo tempo.

Como na época da aceleração os anos já não começam nem terminam, apenas se emendam, tanto quanto os meses e como os dias, a metade de 2016 chegou quando parecia que ainda era março. Estamos exaustos e correndo. Exaustos e correndo. Exaustos e correndo. E a má notícia é que continuaremos exaustos e correndo, porque exaustos-e-correndo virou a condição humana dessa época. E já percebemos que essa condição humana um corpo humano não aguenta. O corpo então virou um atrapalho, um apêndice incômodo, um não-dá-conta que adoece, fica ansioso, deprime, entra em pânico. E assim dopamos esse corpo falho que se contorce ao ser submetido a uma velocidade não humana. Viramos exaustos-e-correndo-e-dopados. Porque só dopados para continuar exaustos-e-correndo. Pelo menos até conseguirmos nos livrar desse corpo que se tornou uma barreira. O problema é que o corpo não é um outro, o corpo é o que chamamos de eu. O corpo não é limite, mas a própria condição. O corpo é.

Os cliques da internet tornaram-se os remos das antigas galés. Remem remem remem. Cliquem cliquem cliquem para não ficar para trás e morrer. Mas o presente, nessa velocidade, é um pretérito contínuo. Se a internet parece ter encolhido o mundo, e milhares de quilômetros podem ser reduzidos a um clique, como diz o clichê e alguns anúncios publicitários, nosso mundo interno ficou a oceanos de nós. Conectados ao planeta inteiro, estamos desconectados do eu e também do outro. Incapazes da alteridade, o outro se tornou alguém a ser destruído, bloqueado ou mesmo deletado. Falamos muito, mas sozinhos. Escassas são as conversas, a rede tornou-se em parte um interminável discurso autorreferente, um delírio narcisista. E narciso é um eu sem eu. Porque para existir eu é preciso o outro.

Há tanta informação disponível, mas talvez estejamos nos imbecilizando. Porque nos falta contemplação, nos falta o vazio que impele à criação, nos falta silêncios. Nos falta até o tédio. Sem experiência não há conhecimento. E talvez uma parcela do ativismo seja uma ilusão de ativismo, porque sem o outro. Talvez parte do que acreditamos ser ativismo seja, ao contrário, passividade. Um novo tipo de passividade, cheia de gritos, de certezas e de pontos de exclamação. Os espasmos tornaram-se a rotina e, ao se viver aos espasmos, um espasmo anula o outro espasmo que anula o outro espasmo. Quando tudo é grito não há mais grito. Quando tudo é urgência nada é urgência.Ao final do dia que não acaba resta a ilusão de ter lutado todas as lutas, intervindo em todos os processos, protestado contra todas as injustiças. Os espasmos esgotam, exaurem, consomem. Mas não movem. Apaziguam, mas não movem. Entorpecem, mas será que movem?

Sobre esse tema há um pequeno livro, precioso, chamado sugestivamente deSociedade do Cansaço (Editora Vozes). Seu autor é o filósofo Byung-Chul Han, um coreano radicado na Alemanha que se tornou professor universitário de filosofia e estudos culturais em Berlim. Neste livro, Han faz um diálogo crítico com pensadores como Alain Ehrenberg, Giorgio Agamben, Michel Foucault, Hanna Arendt, Walter Benjamin e Friedrich Nietzsche, entre outros. Já meu diálogo com ele é por minha própria conta e risco.

Sobre nossa nova condição, Han diz:

“A sociedade do trabalho e a sociedade do desempenho não são sociedades livres. Elas geram novas coerções. A dialética do senhor e escravo está, não em última instância, para aquela sociedade na qual cada um é livre e que seria capaz também de ter tempo livre para o lazer. Leva, ao contrário, a uma sociedade do trabalho, na qual o próprio senhor se transformou num escravo do trabalho. Nessa sociedade coercitiva, cada um carrega consigo seu campo de trabalho. A especificidade desse campo de trabalho é que somos ao mesmo tempo prisioneiro e vigia, vítima e agressor. Assim, acabamos explorando a nós mesmos. Com isso, a exploração é possível mesmo sem senhorio”.

Os autônomos são autômatos, programados para chicotear a si mesmos

Chegamos a isso: a exploração mesmo sem patrão, já que o introjetamos. Quem é o pior senhor se não aquele que mora dentro de nós? Em nome de palavras falsamente emancipatórias, como empreendedorismo, ou de eufemismos perversos como “flexibilização”, cresce o número de “autônomos”, os tais PJs (Pessoas Jurídicas), livres apenas para se matar de trabalhar. Os autônomos são autômatos, programados para chicotear a si mesmos. E mesmo os empregados se “autonomizam” porque a jornada de trabalho já não acaba. Todos trabalhadores culpados porque não conseguem produzir ainda mais, numa autoimagem partida, na qual supõem que seu desempenho só é limitado porque o corpo é um inconveniente.

Para este filósofo, a sociedade do século 21 não é mais disciplinar, como na construção de Foucault (1926-1984). Mas uma sociedade de desempenho. Também seus habitantes não se chamam mais “sujeitos de obediência”, mas “sujeitos de desempenho e de produção”. São empresários de si mesmos.

Se a sociedade disciplinar era uma sociedade de negatividade, a desregulamentação crescente vai abolindo-a. A afirmação Yes, we can, segundo Han, expressa o caráter de positividade da sociedade de desempenho. No lugar de “proibição”, “mandamento” ou “lei”, entram “projeto”, “iniciativa” e “motivação”. Assim, não é um acaso que a depressão é a doença dessa época. A sociedade disciplinar é dominada pelo “não”. Sua negatividade gera loucos e delinquentes. A sociedade do desempenho, para a qual teríamos “evoluído”, ao contrário, produz depressivos e fracassados. A sociedade de desempenho, nas palavras de Han, produz infartos psíquicos.

O depressivo seria o animal laboransque explora a si mesmo. É agressor e vítima ao mesmo tempo. A depressão irromperia no momento em que o sujeito de desempenho não pode mais poder. Afinal, se tudo é possível, como eu não posso? O imperativo do tudo é possível é, paradoxalmente, aniquilador. Porque, obviamente, tudo não é possível. Nada mais limitante do que acreditar não ter limites. E viver como se poder poder dependesse apenas da (livre) iniciativa de cada um. E não poder poder, ter limites, portanto, fosse um fracasso pessoal.

Han sugere que a depressão é um cansaço de fazer e de poder. Só uma sociedade que acredita que tudo é possível é capaz de engendrar a lamúria depressiva de que nada é possível. “Não mais poder poder leva a uma autoacusação destrutiva e a uma autoagressão”, diz o filósofo. “O sujeito de desempenho encontra-se em guerra consigo mesmo. O depressivo é o inválido dessa guerra internalizada.”

A depressão, portanto, seria o adoecimento de uma sociedade que sofre sob o excesso de positividade. “O sujeito de desempenho está submisso apenas a si mesmo. É nisso que ele se distingue do sujeito de obediência. A queda da instância dominadora não leva à liberdade. Ao contrário, faz com que liberdade e coação coincidam. Assim, o sujeito de desempenho se entrega à livre coerção de maximizar o desempenho. O excesso de trabalho e desempenho agudiza-se numa autoexploração. Essa é mais eficiente que uma exploração do outro, pois caminha de mãos dadas com o sentimento de liberdade. O explorador é ao mesmo tempo o explorado. Agressor e vítima não podem mais ser distinguidos.”

E, assim, estamos cada mais livres para trabalhar 24X7 – ou atuar 24X7. Alcançamos a paradoxal liberdade de sermos escravos. Como o corpo se rebela, manifestando-se em depressões, insônias, crises de ansiedade e de pânico, dopa-se o corpo. Mas o corpo não é uma outra coisa, não é sequer a casa da alma. O corpo é. Assim, ao mesmo tempo que denunciamos a opressão, a calamos. Como a relação senhor-escravo não pode ser questionada, menos ainda se ambos ocupam a mesma pessoa, o doping cumpre a função de censurar os protestos do mundo interior – ou dos escombros que restam dele. Cumpre, no nível interno, o papel das bombas de gás e das balas de borracha da PM nas manifestações de rua contra o status quo. Mas, aqui, é o mesmo indivíduo, o que reprime, censura e silencia, e o que é reprimido, censurado e silenciado.

Ser multitarefa, uma outra dimensão do mesmo fenômeno, é visto como uma capacidade neste momento histórico, uma espécie de ganho evolutivo que tornaria a pessoa mais bem adaptada à sua época. É pergunta de questionários, qualidade apresentada por pessoas vendendo a si mesmas, exigência apontada pelos gurus do sucesso. Logo se tornará altamente subversivo, desorganizador, alguém ter a ousadia de afirmar: “Não, eu não sou multitarefa. Me dedico a uma coisa de cada vez”.

Han, assim como outros filósofos contemporâneos, discorda dessa ideia – ou dessa propaganda. Ou, ainda, dessa armadilha. Para ele, a técnica temporal e de atenção multitarefa não representa nenhum progresso civilizatório. Trata-se, sim, de um retrocesso. O excesso de positividade se manifesta também como excesso de estímulos, informações e impulsos. Modifica radicalmente a estrutura e a economia da atenção. Com isso, fragmenta e destrói a atenção. A técnica da multitarefa não é uma conquista civilizatória atingida pelo humano deste tempo histórico. Ao contrário, está amplamente disseminada entre os animais em estado selvagem:

“Um animal ocupado no exercício da mastigação da sua comida tem de ocupar-se, ao mesmo tempo, também com outras atividades. Deve cuidar para que, ao comer, ele próprio não acabe comido. Ao mesmo tempo ele tem que vigiar sua prole e manter o olho em seu/sua parceiro/a. Na vida selvagem, o animal está obrigado a dividir sua atenção em diversas atividades. Por isso, não é capaz de aprofundamento contemplativo – nem no comer nem no copular. O animal não pode mergulhar contemplativamente no que tem diante de si, pois tem de elaborar, ao mesmo tempo, o que tem atrás de si”.

A contemplação é civilizatória. E o tédio é criativo. Mas ambos foram eliminados pelo preenchimento ininterrupto do tempo humano por tarefas e estímulos simultâneos. Você executa uma tarefa e atende ao celular, responde a um WhatsApp enquanto cozinha, come assistindo à Netflix e xingando alguém no Facebook, pergunta como foi a escola do filho checando o Twitter, dirige o carro postando uma foto no Instagram, faz um trabalho enquanto manda um email sobre outro e assim por diante. Duas, três… várias tarefas ao mesmo tempo. Como se isso fosse um ganho – e não uma perda monumental, uma involução.

Voltamos ao modo selvagem. Nietzsche (1844-1900), ainda na sua época, já chamava a atenção para o fato de que a vida humana finda numa hiperatividade mortal se dela for expulso todo elemento contemplativo: “Por falta de repouso, nossa civilização caminha para uma nova barbárie”.

Frente à vida desnuda, aponta Han, reagimos com hiperatividade, com a histeria do trabalho e da produção. A agudização hiperativa da atividade faz com que essa se converta numa hiperpassividade. Aderimos a todo e qualquer impulso e estímulo. Em vez da liberdade, novas coerções. Só por meio da negatividade do parar interiormente, o sujeito de ação pode dimensionar todo o espaço da contingência que escapa a uma mera atividade. Vivemos, diz ele, num mundo muito pobre de interrupções, pobre de entremeios e tempos intermédios.

Assim, o que parece movimento pode ser apenas adesão e paralisia. O ativo, ou o hiperativo, talvez seja de fato um hiperpassivo. Se há um tempo só, o do acontecimento, ou se tudo é acontecimento, nada de fato acontece. Em parte, explica a sensação de que tudo é efêmero, de que o espasmo de um segundo atrás, que produziu gritos e fúrias, tornou-se distante, substituído por outro que também produz gritos e fúrias, e que um segundo adiante já não será. E logo não se sabe exatamente pelo que se grita e pelo que se enfurece, mas o imperativo é seguir gritando e se enfurecendo.

Nessa atualidade histérica, a irritação substitui a ira. Voltando às palavras de Han: “A ira é uma capacidade que está em condições de interromper um estado, e fazer com que se inicie um novo estado. Hoje, cada vez mais, ela cede lugar à irritação ou ao enervar-se, que não podem produzir nenhuma mudança decisiva”.

A positividade dessa época tem, no meu modo de ver, um desdobramento nessa crise tão particular do Brasil. Temos sido instados a ser “otimistas” ou a escolher este ou aquele lado “para recuperar o otimismo”. Como se a questão se desse em torno do otimismo/pessimismo, ou como se o otimismo fosse uma qualidade moral. Essa positividade também me parece aqui ganhar uma relação com a esperança, como já escrevi neste espaço. Como se o esperançoso tivesse uma qualidade moral a mais, o que o colocaria um ou vários patamares acima de todos os outros. E como se esse momento fosse uma questão de esperança ou de resgate da esperança, para além das manipulações marqueteiras mais óbvias. Pouco importa o otimismo/pessimismo, pouco importa a esperança. O buraco é muito mais fundo.

Há que se escutar o mal-estar – e não calá-lo. Vivê-lo num processo de interrogação, vivê-lo como movimento. Carregar os limites, sem confundir ter limites com estar paralisado. Não há potência total, não há tudo é possível, não há Yes, we can. Não ter potência total não é o mesmo que ser impotente. A ilusão da potência total é que acaba levando à impotência. Há potência em dizer não – e há potência em não fazer. Como Bartleby, o personagem de Herman Melville intuiu, “prefiro não fazer” pode ser um ato de resistência e de reconexão com a própria humanidade.

Em mais um paralelo com as crises do Brasil atual, chama a atenção a necessidade de respostas imediatas, de explicações instantâneas, de certezas. Em alguns momentos mais agudos, uma parcela da própria imprensa parece ter se esquecido de fazer perguntas. A exigência de respostas imediatas, respostas que não passem pela investigação e pela interrogação, leva à resposta nenhuma. Porque não há pergunta. Porque o pensamento está ausente, foi substituído pelo reflexo e pelo imperativo de preencher o vazio com palavras. Não há mérito na velocidade, nadas imediatos continuam sendo nadas. Ou coisa pior.

Como aponta Han, apesar de todo o seu desempenho, o computador é burro, na medida em que lhe falta a capacidade para hesitar. Se o computador conta de maneira mais rápida que o cérebro humano e acolhe uma imensidão de dados é também porque está livre de toda e qualquer alteridade. É, por excelência, uma máquina positiva. Tornar essa positividade uma qualidade a ser imitada é uma estupidez a qual temos aderido.

Há anos ouvimos tantos repetindo por aí: “Estou cansad@”. O cansaço, diz Han, é mais do menos eu. Mas a tragédia é que “o menos no eu se expressa como um mais para o mundo”. E, assim, a sociedade do cansaço, enquanto uma sociedade ativa, desdobra-se lentamente numa sociedade do doping. E leva a um “infarto da alma”.

Senhor e escravo ao mesmo tempo, temos uma chance enquanto houver também um rebelde. Escutá-lo é preciso. Anestesiá-lo não é.

Por Eliane Brum, escritora, repórter e documentarista. 

Estamos transformando conflitos e diferenças em doenças? Reflexões sobre a medicalização de crianças e adolescentes

” Klessyo Freire psicólogo

Confiram o texto do psicólogo e entrevistado do filme “Sem Tarja”, Klessyo Freire sobre medicalização

Medicalização é o processo no qual questões sociais complexas são individualizadas através de uma lógica reducionista que expressaria um “suposto” adoecimento do organismo por não se adequar a um padrão estabelecido pela sociedade. Um exemplo de medicalização é aquele caso típico em que temos um desejo de aprender ou fazer uma atividade nova e não temos tempo. Quando vamos conversar com um/a amigo/a, parente ou conhecido/a sobre esse desejo, ele/a nos diz frases do tipo “organiza melhor seu tempo/ quando se quer arranja tempo” sem considerar que a maior parte da população vive uma vida de sobrevivência, não estamos tendo tempo para “viver”.

            Assim, como expus no exemplo, a culpa sempre recai no individuo e fatores sociais, culturais, econômicos e relacionais são desconsiderados ou relegados a segundo plano. Os processos de medicalização têm ganhado uma força cada vez maior e têm invadido nosso dia a dia de forma avassaladora. Atualmente não ficamos mais tristes, ficamos deprimidos (um vocabulário psiquiátrico que remete a uma doença) e temos que viver um processo de felicidade constante, nem que para isso tenhamos que fazer uso de psicofármacos, manuais de viver, terapias da “felicidade” e tantos outros métodos vendidos por aí. Audous Huxley, no livro Admirável mundo novo, publicado em 1932, já nos advertia:

           A felicidade real sempre parece sórdida em comparação com as supercompensações do sofrimento. E, por certo, a estabilidade não é, nem de longe, tão espetacular como a instabilidade. E o fato de estar satisfeito nada tem a fascinação de uma boa luta contra a desgraça, nada de pitoresco de um combate contra a tentação, ou de uma derrota fatal sob os golpes da paixão ou da dúvida. A felicidade nunca é grandiosa. (2014/1932, p.266)

            Na educação os processos de medicalização têm invadem de forma avassaladora o dia a dia da escola. Em uma sociedade que produz uma escola cheia de contradições e com um enorme dificuldade em lidar com as diferenças, na qual estão presentes preconceitos de classe, de gênero, religioso, e a LGBTfobia. Dessa forma, em um ambiente escolar altamente expulsivo com os alunos que não se encaixam em um padrão estabelecido pela sociedade e reproduzido por ele são rotulados, patologizados, criminalizados, enfim…medicalizados.

            Esse processo acontece de forma violenta e excludente, sentenciando destinos e silenciando subjetividades de crianças e adolescentes. Produzimos um tipo de escola que têm contribuído sistematicamente para as constantes violação dos direitos humanos que assistimos atualmente, a exemplo do racismo, feminicídio, genocídio do povo negro e indígena, LGBTfobia e tantos outros casos presentes no dia a dia. E ainda querem retirar as discussões de gênero e sexualidade na escola e reduzir a maioridade penal, abaixo o retrocesso.

            Enfim, escrevo essa introdução para me apresentar e falar um pouco da minha história, quebrando um pouco a ordem e a formalidade exigida em alguns espaços textuais. Me chamo Klessyo Freire, sou psicólogo, pesquisador e militante contra os processos de medicalização da educação e da vida e durante aproximadamente oito anos passei por um processo de medicalização que incluiu o diagnóstico do “suposto” TDAH (Transtorno do Déficit de Atenção). Durante esse tempo fiz uso do Cloridrato de Metilfenidato e de alguns antidepressivos.

            Quando tinha 15 anos eu questionava a escola e os seus padrões, não entendia porque tinha que aprender coisas que nunca usaria na vida. Eu gostava de ler sobre história, filosofia, como o mundo funcionava e etc. e chegava na escola e via um conhecimento que não me atraia. Era me dito “aprenda isso na escola para passar no vestibular, depois você não vai precisar de nada disso”, me fazendo questionar que escola é essa que traz um tipo de conhecimento utilitarista e que só vai ser usado para passar no vestibular?

            Com isso, eu tinha enorme dificuldades com matérias exatas (principalmente matemática), não me despertava curiosidade aprender fórmulas prontas que eu não sabia como seriam usadas. Fui tetracampeão na recuperação em matemática, fui para a famosa “recu” na 8ª série, 1º, 2º e 3 º ano, bem como de outras matérias como física, química e biologia. Posso dizer que senti na pele a exclusão com aqueles que fogem a norma e não aprendem, sofrendo a exclusão de colegas e professores.

            Nesse contexto, que quando recebi o diagnóstico com 15 anos, ele veio com uma sensação de “conforto” por saber “o que eu tinha”. O problema é que o diagnóstico cola na gente feito cola, viramos TDAHs, TODs (Transtorno Opositor Desafiante), Disléxicos e etc. e silenciamos nossas angústias e questionamentos. Durante um tempo não me era permitido ficar triste porque tomava antidepressivos devido a minha oscilação de humor (depois fui perceber que muito dessa oscilação era causada pelo efeito do Cloridrato de Metilfenidato) e isso me causava um incomodo tremendo.

            Acabei por internalizar por muito tempo o “tem algo errado comigo”, de forma que acabei ficando dependente e fazendo uso abusivo do Cloridrato de Metilfenidato. O início da desconstrução desse processo de medicalização teve origem quando comecei a cursar o curso de psicologia e entrei em contato com algumas discussões. Mesmo assim, persistia o discurso de que teria alguma coisa, sustentado em muitos casos inclusive pelas análises e psicoterapias que passei.

            A desconstrução desse processo culminou na minha entrada no Fórum de Medicalização da Educação e da Sociedade, quando comecei a militar contra os processos de medicalização, principalmente na escola. Atualmente, além do Fórum, eu tenho pesquisado e estudado os processos de medicalização, principalmente na escola e na saúde mental. A minha saída para isso tudo foi através do coletivo e da militância política.

            Dessa forma, eu aconselho aos pais e educadores/as de que se o/a filho/a ou o/a aluno/a de vocês receberem algum rótulo ou diagnóstico procurem ver a história de muitos desses “supostos” transtornos e as controvérsias e polêmicas subjacentes a eles, a exemplo do TDAH. A ciência não é neutra e em muitos casos, responde a interesses econômicos como a indústria farmacêutica, que está intrinsicamente aos processos de medicalização e a produção de muitos desses “supostos” transtornos. A diferença não pode ser tratada como doença, vamos ver o tipo de sociedade que estamos produzindo e as relações opressivas dela que a escola têm reproduzido sistematicamente.

Portanto, encerro esse texto dizendo que acredito na educação como um espaço de potência e capaz de fazer frente às constantes violações dos direitos humanos (os processos de medicalização estão incluídos ai também) que assistimos no dia a dia. Como foi dito acima na poesia que escrevi acima, “onde existe opressão têm resistência”. Se a lógica da medicalização é individualizar, vamos subverter a ordem e coletivizar e tornar essa luta política, fazendo frente a muitos desses processos que estão presentes no dia a dia e nas políticas públicas.

Como dizia Raul Seixas no trecho da música carimbador maluco exposto abaixo, o preço a ser pago pela rotulo é grande.

“Tem que ser selado, registrado, carimbado

Avaliado e rotulado se quiser voar!!

Se quiser voar

Pra lua, a taxa é alta

Pro sol, identidade,

Vai já pro seu foguete viajar pelo universo

É preciso o meu carimbo dando, sim sim sim sim”

            Vamos lutar para que as pessoas possam voar e ir a lua sem carimbos, rótulos e sem pagar as altas taxas que lhe são exigidas. Por uma sociedade sem rótulos e que respeite as diferenças.

*Por Klessyo Freire, psicólogo, pesquisador, militante contra os processos de medicalização da educação e da vida e entrevistado do filme Sem Tarja.

“A psiquiatria está em crise”

el pais

Tudo começou com duas perguntas. Como é possível que os pacientes de esquizofrenia evoluam melhor em países onde são menos medicados, como a Índia e a Nigéria, do que em nações como os Estados Unidos? E como se explica, tal como proclamou em 1994 a Escola de Medicinade Harvard, que a evolução dos pacientes de esquizofrenia tenha piorado com a implantação de medicamentos, em relação aos anos setenta? Essas duas perguntas inspiraram Robert Whitaker a escrever uma série de reportagens para o jornal Boston Globe – finalista do prêmio Pulitzer de Serviço Público – e dois polêmicos livros. O segundo, Anatomy of an Epidemic (“Anatomia de uma epidemia”, em tradução literal), foi premiado como o melhor livro investigativo de 2010 por editores e jornalistas norte-americanos.

No decorrer dessa pesquisa, surgiu uma corrente de dados avassaladores: em 1955, havia 355.000 pessoas em hospitais com um diagnóstico psiquiátrico nos Estados Unidos; em 1987, 1,25 milhão de pessoas no país recebia aposentadoria por invalidez por causa de alguma doença mental; em 2007, eram 4 milhões. No ano passado, 5 milhões. O que estamos fazendo de errado?

Whitaker (Denver, Colorado, 1952) se apresenta, humildemente, com as mãos nos bolsos, em um hotel de Alcalá de Henares, na periferia de Madri. Sua cruzada contra os comprimidos como solução contra os distúrbios mentais não vai mal. Prestigiadas escolas de medicina o convidam a explicar seus trabalhos. “O debate está aberto nos Estados Unidos. A psiquiatria está entrando em um novo período de crise no país, porque a história que nos contaram desde os anos oitenta caiu por terra”.

Pergunta. No que consiste essa história falsa que, segundo o senhor, nos foi contada?

Resposta. A história falsa nos Estados Unidos e em parte do mundo desenvolvido é que a causa da esquizofrenia e da depressão seria biológica. Foi dito que esses distúrbios se deviam a desequilíbrios químicos no cérebro: na esquizofrenia, por excesso de dopamina; na depressão, por falta de serotonina. E nos disseram que havia medicamentos que resolviam o problema, assim como a insulina faz pelos diabéticos.

P. Em Anatomy of an Epidemic, o senhor afirma que os psiquiatras aceitaram a teoria do desequilíbrio químico porque prescrever comprimidos os fazia parecer mais médicos, os igualava aos colegas de profissão.

R. Nos Estados Unidos e em muitos outros lugares, os psiquiatras sempre tiveram um complexo de inferioridade. O restante dos médicos costumava enxergá-los como se não fossem médicos autênticos. Nos anos setenta, quando faziam seus diagnósticos baseando-se em ideias freudianas, eram muito criticados. E como poderiam reconstruir sua imagem diante do público? Vestiram suas roupas brancas, o que lhes dava autoridade. E começaram a se chamar a si mesmos de psicofarmacólogos quando passaram a prescrever medicamentos. A imagem deles melhorou. O poder deles aumentou. Nos anos oitenta, começaram a fazer propaganda desse modelo, e nos noventa, a profissão já não prestava atenção a seus próprios estudos científicos. Eles acreditavam em sua própria propaganda.

P. Mas isso parece um exagero, não? É afirmar que os profissionais não levaram em conta o efeito que esses remédios poderiam ter na população.

R. É uma traição. Foi uma história que melhorou a imagem pública da psiquiatria e ajudou a vender medicamentos. No final dos anos oitenta, o comércio desses fármacos movimentava 800 milhões de dólares por ano. Vinte anos mais tarde, já eram 40 bilhões de dólares.

P. E agora o senhor afirma que há uma epidemia de doenças mentais criadas pelos próprios medicamentos.

R. Se estudarmos a literatura científica, observamos que já estamos utilizando esses remédios há 50 anos. Em geral, o que eles fazem é aumentar a cronicidade desses transtornos.

P. O que o senhor diz para as pessoas que tomam remédios? Alguns talvez não precisem, mas outros talvez sim. Essa mensagem, se for mal interpretada, pode ser perigosa.

R. Sim, é verdade. Pode ser perigosa. Bom, se a medicação funciona, fantástico. Há pessoas para quem isso funciona. Além disso, o cérebro se adapta aos comprimidos, o que significa que retirá-los pode ter efeitos graves. O que falamos no livro é sobre o resultado de maneira geral. Não sou médico. Sou jornalista. O livro não traz conselhos médicos, não é para uso individual. É para que a sociedade se pergunte: nós organizamos o atendimento psiquiátrico em torno de uma história cientificamente correta ou não?

A trajetória de Whitaker não foi fácil. Apesar de seu livro contar com muitas evidências e ter recebido muitos prêmios, a obra desafiou os critérios da Associação Norte-Americana de Psiquiatria (APA) e os interesses da indústria farmacêutica.

Mas, a essa altura, ele se sente recompensado. Em 2010, seus postulados eram vistos como uma “heresia”, segundo ele mesmo define. Desde então, novos estudos foram na direção para a qual ele apontava. Entre eles, os trabalhos do psiquiatras Martin Harrow e Lex Wunderink e o fato de a prestigiada revista científica British Journal of Psychiatry já assumir que é preciso repensar o uso de medicamentos. “Os comprimidos podem servir para esconder o mal-estar, para esconder a angústia. Mas não são curativos, não produzem um estado de felicidade”.

P. Vivemos em uma sociedade na qual precisamos pensar que os remédios podem resolver tudo?

R. Foi o que nos incentivaram a acreditar. Nos anos cinquenta, foram produzidos avanços médicos incríveis, como os antibióticos. Nos anos sessenta, a sociedade norte-americana começou a achar que havia uma fórmula mágica para curar muitos problemas. Na década de oitenta, foi promovida a ideia de que se uma pessoa estava deprimida, não era pelo contexto de sua vida, mas sim porque ela tinha um distúrbio mental – era uma questão química e havia um remédio que a faria se sentir melhor. O que se promoveu nos Estados Unidos, na realidade, foi uma nova forma de viver, que foi exportada para o resto do mundo. A nova filosofia era: você precisa ser feliz o tempo todo e, se não for, temos uma pílula.Mas o que sabemos é que crescer é difícil, surge todo tipo de emoções e é preciso aprender a organizar o comportamento.

P. Buscamos o conforto e o mundo vai se parecendo com aquele descrito por Aldous Huxley em Admirável Mundo Novo

R. Desde agora. Perdemos a noção de que o sofrimento faz parte da vida, de que às vezes é muito difícil controlar a própria mente. As emoções que sentimos hoje podem ser muito diferentes daquelas da semana ou do ano seguintes. E nos fizeram ficar alertas o tempo todo em relação a nossas emoções.

P. Centrados demais em nós mesmos…

R. Exatamente. Se nos sentimos infelizes, pensamos que há algo errado conosco. Antes, as pessoas sabiam que era preciso lutar na vida; e não se incentivava tanto que pensassem em seu estado emocional. Com as crianças, se elas não comportam bem na escola ou não vão bem, logo alguém as diagnostica com déficit de atenção e diz que é preciso tratá-las.

P. A indústria ou a APA estão criando novas doenças que, na realidade, não existem?

R. Estão criando mercado para seus remédios e estão criando pacientes. Ou seja, se olharmos do ponto de vista comercial, o êxito desse setor é extraordinário. Temos pílulas para a felicidade, para a ansiedade, para que seu filho vá melhor na escola. O transtorno por déficit de atenção e hiperatividade é uma fantasia. É algo que não existia antes dos anos noventa.

P. A ansiedade pode se transformar em distúrbio?

R. A ansiedade e a depressão não estão muito longe uma da outra. Há pessoas que experimentam estados avançados de ansiedade, mas estar vivo é, muitas vezes, estar ansioso. Isso começou a mudar com a introdução dos benzodiazepínicos, com o Valium. A ansiedade deixou de ser um estado normal da vida para ser apresentada como um problema biológico. Nos anos oitenta, a APA pega esse amplo conceito de ansiedade e neurose, que é um conceito freudiano, e começa a associar a ele doenças como o transtorno do estresse pós-traumático. Mas não há ciência por trás dessas mudanças.

Fonte: El País