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Uma auditoria realizada em janeiro constatou diversas irregularidades no hospital, que é o maior manicômio em número de leitos SUS do Brasil

Uma auditoria realizada em janeiro constatou diversas irregularidades no hospital, que é o maior manicômio em número de leitos SUS do Brasil

“Parece um hotel cinco estrelas”. É assim que Wilson Abramosviz, o Pitico, 62 anos, define seu novo lar ao receber a reportagem de CartaCapital em sua residência terapêutica. Pitico vive em uma casa com mais nove ex-internos de diversos hospitais psiquiátricos de Sorocaba, interior de São Paulo. Há um ano na residência, ele não tem sobre o que reclamar, especialmente levando-se em conta sua situação anterior: “A ala em que eu morava era um pavilhão com 90 pessoas, com quartos dos dois lados do corredor. Era algo meio prisão”.

A “prisão” a que Pitico se refere é o Hospital Vera Cruz, o maior manicômio com leitos públicos do Brasil, com capacidade para 512 pessoas. Interno por 13 anos no hospital (hoje sob intervenção da prefeitura de Sorocaba), Pitico vê na residência terapêutica a chance de recomeçar sua vida, desta vez, com mais autonomia e liberdade. Esta expectativa por um recomeço, no entanto, está em risco, alerta a Frente de Luta Antimanicomial de Sorocaba (Flamas). “Com os antigos donos de hospitais assumindo o controle das residências terapêuticas e dos centros de atendimento, há um risco do pensamento manicomial seguir ativo no tratamento dos pacientes”, afirma o grupo.

A situação de Sorocaba é emblemática dentro do quadro nacional: lá está em curso a substituição de manicômios por instituições mais avançadas, como os Caps (Centro de Atendimento Psicossocial) ou as casas terapêuticas. A iniciativa corre o risco de fracassar por uma teia que envolve relações políticas, verbas milionárias e uma cultura atrasada de tratamento de pacientes psiquiátricos.

Para piorar, a transparência anda em baixa na rede pública de saúde local: por três semanas CartaCapital tentou uma autorização para visitar a instituição mas, depois de muitas idas e vindas e depois de chegar inclusive a prometer acesso ao Vera Cruz, a Prefeitura mudou de ideia e barrou a reportagem.

Interditado desde 2012 após denúncias de abuso aos Direitos Humanos, o Hospital Vera Cruz está em processo de desinstitucionalização. Ou seja, todos os pacientes psiquiátricos internados devem voltar ao convívio social e ser tratados em estruturas extra-hospitalares, dormindo, contudo, em suas residências. No caso de Sorocaba e região, o documento que oficializa esse processo é um Termo de Ajustamento de Conduta (TAC) firmado em 2012 entre o Ministério Público e as prefeituras de Sorocaba, Salto de Pirapora e Piedade. A exigência é que, em um prazo de três anos, prorrogável por mais um, todos os manicômios de Sorocaba e região sejam fechados.

Antes da interdição o Vera Cruz chegou a registrar 46 mortes, no período entre 2006 e 2007,  uma a cada 15 dias. Se considerada a taxa de óbitos nos hospitais das cidades vizinhas, no mesmo período, o número sobe para uma morte a cada três dias, aponta um levantamento da frente antimanicomial coordenado pelo professor de psicologia Marcos Garcia, da Universidade Federal de São Carlos (Ufscar). Na época, uma Comissão Especial, presidida pelo vereador Izídio Correia (PT), investigou e constatou as irregularidades nos manicômios.

O Vera Cruz hoje é administrado pelo Instituto Moriah, que recebe R$ 1,8 milhão do SUS para a função. “Algumas coisas mudaram na região, mas os manicômios ainda são rentáveis”, afirma o Flamas.

Hoje, Pitico e outros 400 pacientes da cidade estão fora de manicômios graças à lei da Reforma Psiquiátrica. Outros 600 estão sob processo de desinstitucionalização.

Aprovada em 2001, a Reforma Psiquiátrica prevê a substituição progressiva de hospitais psiquiátricos de grande porte por uma rede substitutiva, em que o paciente é tratado em instituições extra-hospitalares. O problema é que em Sorocaba, uma das últimas cidades a aceitar a reforma, os donos dos antigos manicômios assumiram o controle da nova rede de assistência de saúde mental e, muitas vezes, reproduzem o tratamento manicomial, considerado inadequado.

Prestação de contas irregular

Segundo a lei, o tratamento de pacientes mentais na rede pública se dá nos Caps (Centros de Atenção Psicossocial), que consistem em casas. Nesses locais, a estratégia de trabalho principal são grupos terapêuticos. Os pacientes chegam pela manhã e são dispensados ao longo do dia para voltar para onde moram.  Mesmo em caso de surtos, os pacientes podem ficar internados por, no máximo, sete dias.

Sorocaba, como outras cidades Brasil afora, passa por um processo de adaptação ao novo modelo. A cidade possui três Caps infantis e oito para adultos. Destes oito, dois pertencem à prefeitura e cinco são de donos de antigos manicômios.

“O Caps é uma sala de 20 m² com uma estante com meia dúzia de livros, um baralho e uma televisão “, relata Pitico, ex-interno por problemas com álcool, ao descrever o Caps III. O relato evidencia a continuidade de problemas típicos dos manicômios presentes em muitos Caps, a falta de atividades culturais e de ações de inserção social, conforme previsto por lei.

Uma auditoria finalizada em janeiro deste ano pediu o rompimento do contrato de administração com a organização Instituto Moriah, que administra Caps na região, por constatar a estrutura precária do Hospital Vera Cruz, o número de profissionais abaixo do exigido por lei, a comida armazenada de forma imprópria e ainda a prestação de contas irregular.

O Instituto Moriah, que administra o hospital Vera Cruz, foi procurado mas não se pronunciou.

Mortes e maus-tratos

Até 2012 Sorocaba tinha quatro manicômios em funcionamento –hoje restam dois. Eles faziam da cidade a maior do País em número de leitos psiquiátricos por habitante. Na época eram oferecidos 2,3 leitos para internação para cada mil pessoas, número quase cinco vezes acima do que determina a legislação brasileira (0,45 leitos para mil pessoas).

Sorocaba, contudo, nunca foi referência em saúde mental. Pelo contrário. Entre 2006 e 2009 morreram 233 pessoas nos manicômios da cidade. A idade média dos mortos era de 43 anos, e um quarto dos óbitos se deu entre pacientes de 17 a 29 anos. Muitos morreram no inverno, por fata de condições para suportar baixas temperaturas.

Houve uma redução de óbitos, mas as mortes seguem acontecendo. Em junho de 2013, por exemplo, um paciente morreu após não resistir às agressões de outro interno. Em novembro do ano seguinte, a história se repetiu, embora o hospital tenha inicialmente registrado boletim de ocorrência alegando morte decorrente de “queda da própria altura”.

Flamas
O Fórum da Luta Antimanicomial de Sorocaba (Flamas)recebeu o Prêmio Direitos Humanos 2011 na categoria enfrentamento a tortura devido às denúncias contra os manicômios de Sorocaba e região

A causa das mortes, em última instância é a mesma, conforme apontam diversos relatórios: o baixo número de profissionais.

A última morte, por exemplo, ocorreu dias depois do Hospital Vera Cruz promover uma demissão em massa. “Quando dava briga tinha que ligar para vir dois ou três da outra ala para segurar porque eram só dois funcionários para cuidar de 50 internos”, lembra Pitico.

Interesses políticos

Demissões em massa, aquisições de Caps por antigos donos de manicômios e a falta de responsabilização pelas mortes e maus-tratos têm uma explicação, segundo a frente antimanicomial: interesses políticos.

“Os donos dos manicômios possuíam muito poder econômico e político, e sócios das instituições assumiam cargos públicos”, afirma o grupo. “Assim, conseguiram formar essa “fortaleza manicomial” que durou até 2011. A nova estratégia é se manter no negócio comprando Caps, mantendo boas relações com o poder público e demitindo a equipe anterior, proveniente de Campinas, reste sim um polo de referência sobre saúde mental.

A fortaleza manicomial a que o Flamas se refere encontrava apoio no Ministério Público de Sorocaba e na Prefeitura. O promotor Jorge Marum, responsável na época por apurar as denúncias de maus-tratos no hospital, desqualificou o relatório do Flamas e sugeriu o engavetamento do caso, dizendo que “não havia nada de errado com os hospitais locais”.

O médico Milton Palma foi secretário da saúde do município entre 2005 a 2011. Durante os seis anos à frente do cargo, Palma era sócio de três hospitais manicomiais da cidade. Após a informação vir à tona, o secretário foi exonerado.

Entre 2005 e 2013 o prefeito de Sorocaba foi Vitor Lippi, hoje deputado federal pelo PSDB paulista. Diante das denúncias de mortes e conflitos de interesse dentro da secretaria de saúde, Lippi defendeu publicamente seu secretário e qualificou as denúncias do Flamas como “uma maldade”.

Com data marcada para os manicômios deixarem de existir, persiste a ameaça de se reproduzir a lógica manicomial em outros espaços que tomem seu lugar, como os Caps. “O problema não é apenas o espaço físico. Sem uma orientação ética e política para acabar de vez com o manicômio, suas práticas podem ser reproduzidas e preservadas em outros dispositivos de saúde, continuando a anular a autonomia e liberdade dos sujeitos”, afirma o grupo.

Brasil sem manicômios

Hoje existem 25.988 leitos em 167 hospitais psiquiátricos no País. Não há prazo para todos os hospitais serem fechados. No entanto, o Ministério da Saúde, a fim de estimular a Reforma Psiquiátrica, reafirma a política de reduzir ano após ano os investimentos nessas instituições, transferindo os pacientes para a rede substitutiva, que não pressupõe internação.

Nos anos 90, um total de 85% do orçamento de saúde mental ia para os hospitais psiquiátricos. Em 2010, esse valor foi de 35%, e hoje está em 20,61%.

O governo federal afirmou em nota que “dentro do propósito de desinstitucionalizar e garantir a livre circulação das pessoas com transtornos mentais na sociedade, o Ministério oferece, ainda, o auxílio-reabilitação psicossocial De Volta Para Casa repassado a pacientes que tenham permanecido em longas internações psiquiátricas”. A bolsa é de R$ 412 mensais para 4.332 pacientes com transtornos mentais que receberam alta hospitalar após um longo histórico de internação psiquiátrica.

A Reforma Psiquiátrica, em curso no Brasil, já foi adotada em quase todos os países europeus, sendo o modelo italiano o referencial para as ações brasileiras.

Ao menos na região de Sorocaba, o avanço ainda está longe de se concretizar.

Fonte: Carta Capital

O carioca Marco Antonio de Carvalho-Filho, professor da Faculdade de Medicina da Universidade de Campinas, é uma daquelas figuras boas de conversa que cativam os alunos sem fazer força. Aos 40 anos, ele entende e fala a língua dos jovens. Nos últimos anos, Carvalho-Filho trabalha para reverter um fenômeno cruel detectado na Unicamp.

Os calouros de medicina escolhem a profissão movidos por sentimentos nobres (como entender o ser humano e aliviar o sofrimento), mas são deformados ao longo da experiência universitária. Para enfrentar o problema, o professor criou uma série de atividades baseadas em recursos das artes e da psicologia. O objetivo é desenvolver nos futuros médicos a chamada empatia – a capacidade de compreender o sentimento ou a reação de outra pessoa imaginando-se nas mesmas circunstâncias.

No primeiro ano, Carvalho-Filho usa obras de arte e textos literários nas aulas. O quadro Udslidt (algo como “desgastado”, em dinamarquês), do pintor Hans Andersen Brendekilde (1857-1942) retrata uma mulher que chora a morte do pai num campo recém-arado por ele. É o pretexto para falar sobre a morte e os sentimentos relacionados a ela. “Discutimos a impotência e as fantasias de poder que o médico pode ter como mecanismo de defesa”, diz Carvalho-Filho. “Isso pode levá-lo a indicar tratamentos fúteis que apenas prejudicam os pacientes”.

Durante uma pesquisa acadêmica orientada por ele e realizada pelo médico Marcelo Schweller, alunos do quarto e do sexto anos foram convidados a atender pacientes fictícios, representados por atores profissionais de forma bastante realista. Os níveis de empatia antes e depois das atividades foram avaliados por meio de uma escala internacional de empatia médica. O desempenho dos alunos do quarto ano aumentou de 115 pontos para 121. Entre os do sexto ano, o crescimento foi de 117 pontos para 123. O trabalho, publicado na revista Academic Medicine, tem sido apresentado em vários congressos médicos internacionais. A seguir, Carvalho-Filho explica como exemplos negativos recebidos durante a faculdade moldam o caráter dos futuros médicos.

ÉPOCA – O ensino de medicina provoca nos alunos uma espécie de antipatia em relação ao pacientes?
Marco Antonio de Carvalho-Filho – Não é exatamente antipatia. Entrevistei os calouros durante três anos consecutivos. Queria saber por que eles haviam escolhido a profissão. Mais de 70% diziam que a principal motivação era ajudar o próximo. A segunda era conhecer o ser humano. Citavam exatamente as virtudes que esperamos que um médico tenha. Infelizmente, a tendência ao longo do curso é que eles percam aquelas motivações iniciais e se distanciem dos pacientes.

ÉPOCA – Por que isso acontece?
Carvalho – Filho – Pense na realidade desses alunos. Para entrar numa universidade como a Unicamp, eles precisam ser alunos de alto rendimento. Vivem em famílias pequenas, têm pais graduados, nunca trabalharam na vida e são solteiros. São garotos privilegiados.

ÉPOCA – De que forma essa condição privilegiada dificulta a adaptação deles à nova realidade?
Carvalho-Filho – Os alunos chegam superprotegidos, com pouca experiência de fracasso ou perda. A maioria nunca perdeu ninguém – nem um tio, uma avó. A sociedade produziu uma geração que cresce confinada em casa, sem a vivência da rua. Isso leva à perda de capacidade de comunicação. Quando esses garotos entram na faculdade de medicina, são expostos à pobreza e à doença. Os pacientes sofrem, perdem funções, morrem. Quando o aluno está diante do sofrimento e não tem instrumentos para lidar com ele, cai na armadilha de usar o cinismo. É natural que isso aconteça. O cinismo – ou distanciamento afetivo – é um mecanismo de defesa.

ÉPOCA – Os estudantes não têm oportunidade de refletir sobre esses sentimentos?
Carvalho-Filho – Falta esse espaço nas escolas médicas, tanto no Brasil como no Exterior. A medicina se desenvolveu de forma tão tecnológica a ponto de suplantar o conhecimento dos últimos 5 mil anos. Nesse processo de especialização, ela se aproximou da doença e se afastou do doente. O aluno  tem que estudar tanto que se esquece da dimensão humana do paciente. Quando percebemos isso na Unicamp, decidimos criar um núcleo para lidar com essa questão.

ÉPOCA – Que tipo de intervenção vocês fizeram durante a pesquisa?
Carvalho-Filho – Criamos pacientes fictícios com a ajuda de uma companhia de atores formados na Unicamp. Construímos pacientes extremamente densos afetivamente. Uma mulher que recebeu o diagnóstico de câncer de mama e não quer se submeter à cirurgia. Um rapaz que imagina ter uma doença cardíaca e, na verdade, enfrenta um tremendo sofrimento porque perdeu o emprego e é arrimo de família. Vários outros casos. Os atores usam uma técnica de realismo. Todos sabem que são atores, mas 96% dos alunos dizem que se sentem diante de pacientes reais. Os alunos atendem esses “pacientes” e depois fazemos um debate. Discutimos os sentimentos e as habilidades de comunicação que cada um demonstrou.

ÉPOCA – Eles se emocionam?
Carvalho-Filho – É espetacular. É a redescoberta da pureza. Olham para mim e perguntam: “Quer dizer que médico pode chorar? Não preciso virar um robô?”. Claro que médico pode chorar. Às vezes, uma lágrima expressa mais que qualquer palavra. Os alunos adoram a atividade. Fazemos das 14 horas às 18 horas. Tem dia que ficamos até às dez horas da noite. Não querem ir embora. Preciso dizer que tenho filho me esperando em casa.

ÉPOCA – É possível treinar a empatia?
Carvalho-Filho – Empatia é a capacidade de se colocar no outro, de entender o outro e ajudá-lo. Alguns estudos sugerem que há um componente cognitivo nessa história — algo que pode ser ensinado e praticado. Mas acredito que o lado afetivo também pode ser treinado. Ensinamos relação médico-paciente com recursos das artes, da poesia, da música, do teatro. Na Unicamp, esse curso faz parte do currículo obrigatório do primeiro ano. Na maioria das faculdades, há uma disciplina de habilidades de comunicação. Ensinam que o médico deve dizer “bom dia” e olhar nos olhos do paciente.

ÉPOCA – Isso basta?
Carvalho-Filho – De jeito nenhum. O aluno precisa perceber que o médico é um especialista na espécie humana. Tanto no lado afetivo como biológico. Falamos sobre técnicas de comunicação. Como eles devem começar uma conversa, como deixar o paciente à vontade. O que determina a boa consulta não é o tempo. É a capacidade de ouvir. Quando era estudante, passa visita no hospital, ia para um bar e só ficava falando sobre os pacientes com os meus amigos. Falava o tempo todo. É uma forma de elaborar as sensações. Queremos ajudar nossos alunos a aprender a amar esse amor. Se não aprende isso, faz uma medicina ruim. Não é fugir do sentimento. É aprender a sentir esse sentimento.

ÉPOCA – Está cada vez mais difícil encontrar um médico que tenha uma boa dose de empatia?
Carvalho-Filho – Se eu chegar à minha casa e perguntar quem teve uma experiência positiva com algum médico no último ano, vai ser aquele silêncio. Médicos que demonstram empatia são raros. Acho que sempre foram. A medicina deveria ser uma bandalheira quando o grupo de Hipócrates achou, lá na Grécia Antiga, que era necessário formalizar certas virtudes em forma de juramento. Hoje, falar em virtude virou tabu na nossa sociedade. O médico bem-sucedido é o médico valorizado pelo mercado.

ÉPOCA – Por tudo isso, a sociedade perdeu a confiança na classe médica?
Carvalho-Filho – Perdeu. Isso é ruim para a classe médica e para a sociedade. O paciente sofre duplamente: pela doença e pela falta de confiança. A situação de trabalho da maioria dos médicos está muito difícil. Baixa remuneração, falta de estrutura, acúmulo de empregos. Com tudo isso, o médico fica reativo. Surge uma série de conflitos nos serviços de saúde. Eles acabam explodindo no colo do paciente. Acho que se tivermos médicos mais preparados afetivamente, do ponto de vista humano, vamos conseguir proteger mais o paciente.

ÉPOCA – O que você chama de currículo oculto na medicina?
Carvalho-Filho – São algumas experiências informais que o aluno acumula na faculdade e que ajudam a moldar o caráter do médico. Boa parte do aprendizado de valores acontece nas festas, no bar, dentro do centro cirúrgico. Um exemplo é o trote.

Fonte: Época

Estou feliz com toda a discussão sobre o trote. Esse debate precisa crescer. O trote é uma forma de perpetuar o poder que não tem nada a ver com o bom exercício da medicina.

ÉPOCA – Isso significa que o aluno chega bem intencionado à faculdade e vai sendo deformado ao longo do curso?
Carvalho-Filho – Na medicina, reproduzimos modelos. Que futuro médico nós teremos se ele vê o melhor cirurgião destratar a enfermeira corriqueiramente? As demonstrações de poder exercido de forma unilateral são modelos negativos. É a educação pela humilhação. Um professor que gosta de um aluno e, mesmo assim, o humilha ensina a esse aluno que a humilhação é uma forma normal de se comunicar. Esse futuro médico vai humilhar a secretária e o paciente.

Muitos pacientes parecem estar desesperados para saírem do hospital guatemalteco

Muitos pacientes parecem estar desesperados para saírem do hospital guatemalteco

Um hospital psiquiátrico na Guatemala foi descrito por ativistas como a instituição médica mais perigosa do mundo. Ex-pacientes dizem que eles foram abusados sexualmente enquanto sedados, e o próprio diretor admite – filmado por uma câmera escondida da BBC – que seus pacientes ainda são abusados.

Por todo o lado, corpos imóveis deitados no chão de concreto do pátio sob o sol ardente. Os pacientes parecem estar altamente sedados. Os cabelos foram raspados e eles usam trapos como roupas e nada nos pés.

Outros estão totalmente nus, expondo a sujeira, causada às vezes pelas próprias fezes e urina. Eles se parecem mais com prisioneiros de campos de concentração do que com pacientes.

O Hospital Federico Mora tem cerca de 340 pacientes, incluindo 50 criminosos violentos e mentalmente perturbados. Mas, segundo o diretor do hospital, Romeo Minera, apenas uma minoria tem sérios problemas mentais – impressionantes 74% chegaram precisando apenas de um pouco de atenção e cuidados e deveriam ter ficado na comunidade.

Minera acredita que a equipe da BBC pertence a um grupo de caridade, oferecendo ajuda para a instituição. Jornalistas não são bem-vindos – o disfarce foi a única maneira de ter acesso ao hospital, condenado por grupos de direitos humanos.

Desespero

Andar em uma das alas é como entrar em um inferno. Aqui, mais pacientes em trapos sentados no chão e em cadeiras de plástico, balançando-se em busca de conforto.

Não parece haver nenhum esforço de estímulo nesse espaço amplo e seguro.

quartos

Quartos ficam em corredores escuros e não há qualquer estímulo à recuperação de pacientes

Os pacientes vêm até nós, desesperados por contato humano. Um homem me agarra e implora para que seja levado do hospital.

Um enfermeiro diz que dois ou três profissionais são responsáveis por 60 a 70 pacientes. Outros dizem que a única maneira de lidar com eles é sedando-os.

Enquanto meu tradutor distrai o diretor, eu ando pelos quartos localizados em um corredor longo e escuro. Aqui, há mais pacientes deitados em camas de metal quebradas e enferrujadas.

Eles parecem sedados demais para andar até o banheiro. Há poças de urina nos colchões, e as roupas de alguns dos pacientes estão coberta pelas próprias fezes. O mau cheiro domina o ambiente – e eu tento, com todas as forças, controlar a náusea.

Em resposta à investigação da BBC, o governo da Guatemala disse que o hospital “usa a menor dose de sedativos como recomendado pela Organização Mundial de Saúde” e defendeu as condições do hospital.

“Há enfermeiros treinados para atender às necessidades dos pacientes, inclusive para mantê-los limpos e vestidos, e uma equipe de manutenção para manter o ambiente limpo”.

Abusos

Mas este não é o fim do horror. Durante a filmagem secreta, o diretor faz uma confissão surpreendente – os guardas abusam sexualmente dos pacientes. O hospital, diz ele, é um lugar “onde tudo pode acontecer”.

Dois ex-pacientes contam terem sido estuprados no Federico Mora. Eles afirmam que os perpetradores também eram da equipe médica, além dos guardas.

Uma paciente diz que foi abusada sexualmente por um enfermeiro enquanto dormia. Ela tinha apenas 17 anos e era virgem.

“Eu não estava ciente disso já que eu estava sedada. Só percebi que tinha perdido minha virgindade no dia seguinte. Eu sangrava pelas pernas, então descobri que o que tinha acontecido naquela noite é que um enfermeiro tinha entrado e me estuprado”, diz.

Este era o terceiro dia dela no hospital. Depois de duas semanas, seus gritos de socorro fizeram com que sua família a tirasse do local. “Você nunca se esquece de uma experiência como essa”, diz ela, entre lágrimas.

Ricardo, outro ex-paciente, diz que foi estuprado durante os três anos que passou no Federico Mora. Ele só foi libertado depois de uma batalha judicial, alegando ter sido diagnosticado erroneamente com esquizofrenia.

“Eles se aproveitavam das pacientes do sexo feminino, quando elas estavam sedadas”, diz Ricardo. “Os agentes da polícia, os pacientes e os enfermeiros – e alguns médicos também. Eles separavam as meninas mais bonitas para si durante à noite”.

‘O mais terrível’

Pacientes podem ficar dias em quartos de isolamento, mas a informação é negada pelo governo; um deles cometeu suicídio

Pacientes podem ficar dias em quartos de isolamento, mas a informação é negada pelo governo; um deles cometeu suicídio

O grupo americano defensor dos direitos de deficientes Disability Rights International (DRI) passou três anos recolhendo provas sobre o Federico Mora. Em um relatório publicado em 2012, o grupo descreveu o hospital como “a instalação mais perigosa que nossos investigadores já viram em qualquer lugar nas Américas”.

O DRI disse que “qualquer pessoa com ou sem deficiência internada neste hospital enfrenta risco imediato para a vida, saúde e integridade pessoal, além de risco de tratamento desumano e degradante ou tortura”.

O relatório explica que pacientes tiveram cuidados médicos negados, foram expostos a doenças e infecções graves e contagiosas e, agravado pelo abuso sexual “generalizado”, estavam em risco de contrair HIV.

Numa visita, o grupo conseguiu filmar uma paciente explicando que ela havia sofrido abuso sexual em seu primeiro dia no hospital, enquanto estava amarrada em uma parede.

“Eu também vi pacientes mantidos em isolamento. Havia um homem literalmente tentando escalar para sair de uma cela de isolamento. Ele estava em cima do muro tentando desesperadamente sair. E pessoas ficam presas nessas cela durante horas ou dias”, disse o fundador da DRI, Eric Rosenthal, que descreveu o local como o “mais terrível” já visitado por ele.

Na minha visita ao hospital, vi um dos quartos de isolamento usados para pacientes violentos demais para serem contidos.

É um quarto de dois metros quadrados com uma pequena janela. Um homem estava encolhido no canto. O chão estava coberto de dejetos humanos.

Ambiente do hospital é imundo, segundo funcionários que falam à BBC. Eles choram e dizem correr perigo

Ambiente do hospital é imundo, segundo funcionários que falam à BBC. Eles choram e dizem correr perigo

O diretor me disse que esses quartos eram monitorados, mas admitiu que, recentemente, um paciente havia cometido suicídio ao subir até a janela e se enforcar.

Processo judicial

O governo guatemalteco defendeu o uso destas celas, dizendo que “os pacientes são mantidos em isolamento durante apenas duas horas em cada ocasião” e são constantemente monitorados.

O governo também afirmou que ninguém estava sendo mantido em isolamento durante a nossa visita.

O uso de salas de isolamento era parte das provas levadas pela DRI à Comissão Interamericana de Direitos Humanos (CIDH) em 2012, que emitiu uma “medida de emergência” – efetivamente obrigando o governo a solucionar as questões levantadas pela DRI para “salvar vidas”.

As autoridades concordaram em agir imediatamente e iniciar uma investigação sobre as alegações de abuso sexual, mas, dois anos depois, aparentemente nada foi feito.

Agora, a DRI está preparando um novo processo judicial contra o governo da Guatemala numa tentativa de fechar o hospital.

O caso será analisado em meados de 2015. O governo da Guatemala será efetivamente julgado pela Comissão sobre os problemas no hospital. O governo poderá enfrentar sanções econômicas e comerciais de outros membros da Comissão Interamericana.

Pacientes aparentam estar sedados demais até para levantar-se e ir ao banheiro. Por isso, estão sempre sujos

Pacientes aparentam estar sedados demais até para levantar-se e ir ao banheiro. Por isso, estão sempre sujos

A equipe do hospital teme represálias se conversar com a imprensa, mas seis funcionários aceitaram em falar na condição de serem estrevistados juntos e não serem identificados.

“Não temos os remédios que precisamos para tratar pacientes. É sujo, há ratos e baratas”, admitiu uma funcionária.

Outro disse: “Acho que falo por todos ao dizer que os abusos cometidos no hospital por guardas são de conhecimento comum”. Os seis choram.

“Não é perigoso só para os pacientes, mas para nós também”, um funcionário diz. “Já reclamamos, mas ninguém ouve. Trabalhar no hospital é horrível”.

O governo da Guatemala disse à BBC que iniciou o processo de melhorar o sistema médico mental pelo país e que está construindo um muro para separar prisioneiros do resto dos pacientes.

E afirmou ainda que, apesar de não ter recebido nenhuma denúncia de abuso sexual, ordenou uma investigação interna.

Fonte: BBC

 

Flávio Bauraqui como Arthur Bispo do Rosário

Flávio Bauraqui como Arthur Bispo do Rosário

Interno da Colônia Juliano Moreira, diagnosticado como esquizofrênico-paranoico, Arthur Bispo do Rosário passava os dias entre os bordados feitos com os fios do uniforme azul do asilo e a reunião de objetos para compor sua arte exasperada. Dizia ser um inventário do mundo para levar a Deus no Dia do Juízo Final. Ganhou o reconhecimento de crítica, museus e bienais. Poucas vezes deixou a cela, vestido com o manto onde inscrevia o nome dos que o ajudaram.

O Senhor do Labirinto, filme de Geraldo Motta em codireção com Gisella Mello previsto para a quinta 11, narra essa trajetória na ficção de maneira menos imaginária e mais realista do rude cotidiano no hospital, sem abrir mão da poesia que as imagens lhe oferecem, reforçadas pela bela fotografia de Kátia Coelho. Um iluminado Flávio Bauraqui interpreta Bispo em todas as fases, a paixão pela médica Rosângela (Maria Flor) e a amizade e apoio do carcereiro Wanderley (Irandhir Santos). Eles envelhecem e a maquiagem pesa na caracterização, mas não prejudica a fruição da dor e beleza de uma existência complexa.

Fonte: Carta Capital

Troféu: o apresentador Rodrigo Faro postou foto ao lado de Loemy no Instagram

Troféu: o apresentador Rodrigo Faro postou foto ao lado de Loemy no Instagram

A disputa das emissoras de TV por uma entrevista com a ex-modelo Loemy Marques, viciada em crack, teve rapto, tentativas de suborno, ofertas de drogas e até um telefonema de um falso Silvio Santos se oferecendo a ajudá-la caso ela fosse a um programa do SBT. Um programa vespertino chegou a colocá-la à força dentro de um carro e sumiu com ela durante várias horas.

Desde o último sábado, produtores de TV travam uma guerra para conseguir um depoimento da jovem, que foi descoberta vivendo na Cracolândia, região degradada de São Paulo. Oito programas de cinco emissoras estão atrás dela. Por enquanto, o Hora do Faro, da Record, está levando a melhor. O programa a mantém em um local secreto, acompanhada de um enfermeiro, desde segunda-feira. O assédio da imprensa continua mesmo depois de ela ter deixado a Cracolândia e o apresentador Rodrigo Faro ter divulgado que a entrevistara em primeira mão.

A história da ex-modelo craqueira foi revelada em reportagem da revista Veja São Paulo do último final semana. Assim que a publicação foi para as bancas, Loemy passou a ser assediada por diferentes canais para falar com exclusividade. No sábado pela manhã, ela circulava pelas ruas da Cracolândia, na região central de São Paulo, onde vive há dois anos. Foi abordada e se sentiu acuada. Usou drogas.

Depois de muita insistência, profissionais de um programa vespertino que a seguiam a colocaram em um carro. Voluntários de uma ONG relatam que Loemy foi tratada como bicho, sem cuidado e respeito, “praticamente forçada a entrar no veículo”. A ex-modelo ficou com a equipe dessa rede de TV durante várias horas. Ela foi deixada no Jabaquara, na zona sul de São Paulo, e só reapareceu na região da Luz na manhã de domingo (23), se queixando da emissora.

Segundo uma testemunha, Loemy estava muito chateada e disse que lhe ofereceram drogas e R$ 500 em troca de uma entrevista. O rapto de “personagem” (forma como são chamados os entrevistados dos programas) não funcionou. Loemy não autorizou o programa a exibir suas imagens.

As artimanhas dos produtores incluíram até se passar por Silvio Santos. Um homem com a voz idêntica a do apresentador ligou para uma ONG na manhã de domingo tentando descobrir o paradeiro de Loemy. Logo em seguida, a entidade recebeu um telefonema da produção do Domingo Legal.

Diante do assédio da mídia, “como urubus em cima de carniça”, na definição de uma voluntária de uma ONG, foi providenciado um local para abrigá-la. A ex-modelo aceitou ir para o apartamento de amigos, se alimentou e dormiu. Na manhã de segunda-feira, foi orientada sobre as propostas das produções que queriam oferecer tratamento em clínicas de reabilitação em troca de um depoimento em que contasse como chegou ao fundo do poço.

Procurada por Globo, SBT, Record, Band e RedeTV!, a ex-modelo escolheu falar com o apresentador Rodrigo Faro, da Record, porque se lembrava dele como ator e considera o Hora do Faro a produção menos sensacionalista das que disputavam seu depoimento, sem levar em conta a da Globo, um programa jornalístico.

Rodrigo Faro foi até Loemy e passou toda a tarde de segunda-feira gravando na região da Cracolândia. Em seguida, postou foto com a moça em sua conta em uma rede social. Seus produtores estão responsáveis pela ex-modelo desde então. Ela está em um hotel e pode falar com seus amigos a hora que quiser. Um enfermeiro também foi contratado para ficar ao lado da dependente química dando assistência em suas crises de abstinência. A reportagem de Faro com a jovem irá ao ar domingo (30). Ela passará por uma transformação hoje (26) e deve participar do programa ao vivo também.

Na Record, o local em que a jovem foi hospedada é mantido em sigilo. Uma fonte afirma que a emissora não pagou desta vez para sair na frente da concorrência. Porém, pagar por entrevistas exclusivas é comum na emissora. Em seus “15 minutos de fama”, algumas pessoas pedem cachê e até fazem exigências para falar com determinado programa. Já teve “personagem” que exigiu passagens aéreas para toda família e hospedagem em hotéis de luxo.

Catarina Migliorini, que ficou famosa por leiloar a virgindade, e Izabela Araújo, motoqueira que ganhou um beijo do jogador de futebol Fred e o vídeo foi parar na internet, teriam recebido cerca de R$ 6.000 cada uma para participar de programas da Record.

Record vai fazer ‘reality show’ com ex-modelo viciada em crack

A Record vai transformar o processo de recuperação de Loemy Marques em uma espécie de reality show dentro do Hora do Faro, programa de Rodrigo Faro que no próximo domingo mostrará o drama da ex-modelo, que trocou as passarelas pelo crack e nos últimos dois anos viveu na Cracolândia, área degradada na região central de São Paulo. “Vamos acompanhar todo o processo [de recuperação], mas se ela fugir da clínica [de reabilitação] será complicado”, disse Faro com exclusividade ao Notícias da TV.

A emissora, em troca da exclusividade pela história de Loemy, já contratou uma uma clínica de reabilitação para a ex-modelo. Também dará ajuda financeira e, mais para a frente, providenciará uma bolsa de estudos em uma faculdade. “Ela quer ser engenheira”, conta Faro. Tudo isso, é claro, será mostrado na TV. O final desse reality show poderá ser uma grande transformação na TV. Ou não. “A gente vai dar o suporte para ela se reerguer, mas ela vai ter que querer”, diz.

Assediada agressivamente por oito programas de TV de cinco emissoras após ter sua história revelada pela Veja São Paulo do último final de semana, Loemy escolheu o Hora de Faro para expor seu drama em rede nacional. Além do pacote de “benefícios” oferecidos pela Record (clínica de reabilitação, dinheiro e faculdade), pesou o fato de ela gostar do apresentador. “Ela me disse: ‘Eu confio em você sem te conhecer’”, afirma Faro.

Desde segunda-feira, Loemy tem sido mantida em um hotel pela Record, acompanhada de um enfermeiro. Ontem, ela gravou parte do programa que vai ao ar domingo. Reecontrou a mãe no palco. A atração também terá uma longa entrevista com ela, gravada na Cracolândia. “Ela pede ajuda na entrevista, conta como tudo aconteceu. Ela começou com maconha. Um dia, ao comprar maconha no centro de São Paulo, foi assaltada. Alguém lhe ofereceu crack e ela nunca mais parou”, adianta o apresentador.

Segundo Faro, Loemy tem tido várias crises de abstinência e tosse muito. “Ela tem momentos de nervosismo, esfrega as mãos uma na outra. Mas ela está querendo sair dessa. Eu vi nos olhos dela uma vontade de ser curada”.

Fonte: Coletivo Dar

Em dezembro acontecerá a Feira de Economia Solidária de Natal da Rede de Saúde EcoSol. Será no dia 13/12, às 11h, no Parque Mário Covas, Avenida Paulista, 1853, metrô Consolação.

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Allen Frances (Nova York, 1942) dirigiu durante anos o Manual Diagnóstico e Estatístico (DSM), documento que define e descreve as diferentes doenças mentais. Esse manual, considerado a bíblia dos psiquiatras, é revisado periodicamente para ser adaptado aos avanços do conhecimento científico. Frances dirigiu a equipe que redigiu o DSM IV, ao qual se seguiu uma quinta revisão que ampliou enormemente o número de transtornos patológicos. Em seu livro Saving Normal (inédito no Brasil), ele faz uma autocrítica e questiona o fato de a principal referência acadêmica da psiquiatria contribuir para a crescente medicalização da vida.

Pergunta. No livro, o senhor faz um mea culpa, mas é ainda mais duro com o trabalho de seus colegas do DSM V. Por quê?

Resposta. Fomos muito conservadores e só introduzimos [no DSM IV] dois dos 94 novos transtornos mentais sugeridos. Ao acabar, nos felicitamos, convencidos de que tínhamos feito um bom trabalho. Mas o DSM IV acabou sendo um dique frágil demais para frear o impulso agressivo e diabolicamente ardiloso das empresas farmacêuticas no sentido de introduzir novas entidades patológicas. Não soubemos nos antecipar ao poder dos laboratórios de fazer médicos, pais e pacientes acreditarem que o transtorno psiquiátrico é algo muito comum e de fácil solução. O resultado foi uma inflação diagnóstica que causa muito dano, especialmente na psiquiatria infantil. Agora, a ampliação de síndromes e patologias no DSM V vai transformar a atual inflação diagnóstica em hiperinflação.

P. Seremos todos considerados doentes mentais?

R. Algo assim. Há seis anos, encontrei amigos e colegas que tinham participado da última revisão e os vi tão entusiasmados que não pude senão recorrer à ironia: vocês ampliaram tanto a lista de patologias, eu disse a eles, que eu mesmo me reconheço em muitos desses transtornos. Com frequência me esqueço das coisas, de modo que certamente tenho uma demência em estágio preliminar; de vez em quando como muito, então provavelmente tenho a síndrome do comedor compulsivo; e, como quando minha mulher morreu a tristeza durou mais de uma semana e ainda me dói, devo ter caído em uma depressão. É absurdo. Criamos um sistema de diagnóstico que transforma problemas cotidianos e normais da vida em transtornos mentais.

P. Com a colaboração da indústria farmacêutica…

R. É óbvio. Graças àqueles que lhes permitiram fazer publicidade de seus produtos, os laboratórios estão enganando o público, fazendo acreditar que os problemas se resolvem com comprimidos. Mas não é assim. Os fármacos são necessários e muito úteis em transtornos mentais severos e persistentes, que provocam uma grande incapacidade. Mas não ajudam nos problemas cotidianos, pelo contrário: o excesso de medicação causa mais danos que benefícios. Não existe tratamento mágico contra o mal-estar.

P. O que propõe para frear essa tendência?

R. Controlar melhor a indústria e educar de novo os médicos e a sociedade, que aceita de forma muito acrítica as facilidades oferecidas para se medicar, o que está provocando além do mais a aparição de um perigosíssimo mercado clandestino de fármacos psiquiátricos. Em meu país, 30% dos estudantes universitários e 10% dos do ensino médio compram fármacos no mercado ilegal. Há um tipo de narcótico que cria muita dependência e pode dar lugar a casos de overdose e morte. Atualmente, já há mais mortes por abuso de medicamentos do que por consumo de drogas.

P. Em 2009, um estudo realizado na Holanda concluiu que 34% das crianças entre 5 e 15 anos eram tratadas por hiperatividade e déficit de atenção. É crível que uma em cada três crianças seja hiperativa?

R. Claro que não. A incidência real está em torno de 2% a 3% da população infantil e, entretanto, 11% das crianças nos EUA estão diagnosticadas como tal e, no caso dos adolescentes homens, 20%, sendo que metade é tratada com fármacos. Outro dado surpreendente: entre as crianças em tratamento, mais de 10.000 têm menos de três anos! Isso é algo selvagem, desumano. Os melhores especialistas, aqueles que honestamente ajudaram a definir a patologia, estão horrorizados. Perdeu-se o controle.

P. E há tanta síndrome de Asperger como indicam as estatísticas sobre tratamentos psiquiátricos?

R. Esse foi um dos dois novos transtornos que incorporamos no DSM IV, e em pouco tempo o diagnóstico de autismo se triplicou. O mesmo ocorreu com a hiperatividade. Calculamos que, com os novos critérios, os diagnósticos aumentariam em 15%, mas houve uma mudança brusca a partir de 1997, quando os laboratórios lançaram no mercado fármacos novos e muito caros, e além disso puderam fazer publicidade. O diagnóstico se multiplicou por 40.

P. A influência dos laboratórios é evidente, mas um psiquiatra dificilmente prescreverá psicoestimulantes a uma criança sem pais angustiados que corram para o seu consultório, porque a professora disse que a criança não progride adequadamente, e eles temem que ela perca oportunidades de competir na vida. Até que ponto esses fatores culturais influenciam?

R. Sobre isto tenho três coisas a dizer. Primeiro, não há evidência em longo prazo de que a medicação contribua para melhorar os resultados escolares. Em curto prazo, pode acalmar a criança, inclusive ajudá-la a se concentrar melhor em suas tarefas. Mas em longo prazo esses benefícios não foram demonstrados. Segundo: estamos fazendo um experimento em grande escala com essas crianças, porque não sabemos que efeitos adversos esses fármacos podem ter com o passar do tempo. Assim como não nos ocorre receitar testosterona a uma criança para que renda mais no futebol, tampouco faz sentido tentar melhorar o rendimento escolar com fármacos. Terceiro: temos de aceitar que há diferenças entre as crianças e que nem todas cabem em um molde de normalidade que tornamos cada vez mais estreito. É muito importante que os pais protejam seus filhos, mas do excesso de medicação.

P. Na medicalização da vida, não influi também a cultura hedonista que busca o bem-estar a qualquer preço?

R. Os seres humanos são criaturas muito maleáveis. Sobrevivemos há milhões de anos graças a essa capacidade de confrontar a adversidade e nos sobrepor a ela. Agora mesmo, no Iraque ou na Síria, a vida pode ser um inferno. E entretanto as pessoas lutam para sobreviver. Se vivermos imersos em uma cultura que lança mão dos comprimidos diante de qualquer problema, vai se reduzir a nossa capacidade de confrontar o estresse e também a segurança em nós mesmos. Se esse comportamento se generalizar, a sociedade inteira se debilitará frente à adversidade. Além disso, quando tratamos um processo banal como se fosse uma enfermidade, diminuímos a dignidade de quem verdadeiramente a sofre.

P. E ser rotulado como alguém que sofre um transtorno mental não tem consequências também?

R. Muitas, e de fato a cada semana recebo emails de pais cujos filhos foram diagnosticados com um transtorno mental e estão desesperados por causa do preconceito que esse rótulo acarreta. É muito fácil fazer um diagnóstico errôneo, mas muito difícil reverter os danos que isso causa. Tanto no social como pelos efeitos adversos que o tratamento pode ter. Felizmente, está crescendo uma corrente crítica em relação a essas práticas. O próximo passo é conscientizar as pessoas de que remédio demais faz mal para a saúde.

P. Não vai ser fácil…

R. Certo, mas a mudança cultural é possível. Temos um exemplo magnífico: há 25 anos, nos EUA, 65% da população fumava. Agora, são menos de 20%. É um dos maiores avanços em saúde da história recente, e foi conseguido por uma mudança cultural. As fábricas de cigarro gastavam enormes somas de dinheiro para desinformar. O mesmo que ocorre agora com certos medicamentos psiquiátricos. Custou muito deslanchar as evidências científicas sobre o tabaco, mas, quando se conseguiu, a mudança foi muito rápida.

P. Nos últimos anos as autoridades sanitárias tomaram medidas para reduzir a pressão dos laboratórios sobre os médicos. Mas agora se deram conta de que podem influenciar o médico gerando demandas nos pacientes.

R. Há estudos que demonstram que, quando um paciente pede um medicamento, há 20 vezes mais possibilidades de ele ser prescrito do que se a decisão coubesse apenas ao médico. Na Austrália, alguns laboratórios exigiam pessoas de muito boa aparência para o cargo de visitador médico, porque haviam comprovado que gente bonita entrava com mais facilidade nos consultórios. A esse ponto chegamos. Agora temos de trabalhar para obter uma mudança de atitude nas pessoas.

P. Em que sentido?

R. Que em vez de ir ao médico em busca da pílula mágica para algo tenhamos uma atitude mais precavida. Que o normal seja que o paciente interrogue o médico cada vez que este receita algo. Perguntar por que prescreve, que benefícios traz, que efeitos adversos causará, se há outras alternativas. Se o paciente mostrar uma atitude resistente, é mais provável que os fármacos receitados a ele sejam justificados.

P. E também será preciso mudar hábitos.

R. Sim, e deixe-me lhe dizer um problema que observei. É preciso mudar os hábitos de sono! Vocês sofrem com uma grave falta de sono, e isso provoca ansiedade e irritabilidade. Jantar às 22h e ir dormir à meia-noite ou à 1h fazia sentido quando vocês faziam a sesta. O cérebro elimina toxinas à noite. Quem dorme pouco tem problemas, tanto físicos como psíquicos.

Fonte: PsiBr

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