Equipe do Cidade Linda e PM massacra cracolândia e dá fim ao Braços Abertos

deleta.jpeg

Aconteceu há pouco uma invasão da polícia militar em parceria com a GCM (Guarda Civil Metropolitana) na Cracolândia, região central de São Paulo, com bombas de gás e tiros de balas de borracha. Muita confusão e usuários feridos. A ação policial começou por volta das 20h, quando o fluxo foi invadido e começou a dispersar as pessoas com truculência.

Informações cedidas ao Democratize dão conta de que a ação foi feita em parceria com equipe do Programa Cidade Linda, do novo prefeito de São Paulo, João Doria (PSDB). De política higienista, Doria cortou, em seu segundo dia de mandato, o salário de dependentes químicos em recuperação, atendidos pelo programa De Braços Abertos, que ganhavam 15 reais por dia em troca de serviços de varrição no centro, região da Luz.

Desde o período eleitoral, o novo prefeito havia se mostrado contrário ao Programa De Braços Abertos, criado na gestão de Fernando Haddad (PT). O de Braços Abertos é um programa de redução de danos; dos 416 beneficiários, 88% dizem ter diminuído o uso de crack, em uma política que se destacou em comparação a experiências anteriores.

Por não exigir dos beneficiários o fim do uso de drogas, o programa é incompreendido por grande parte da população. No entanto, o De Braços Abertos foi avaliado internacionalmente e tem o maior índice de recuperação já registrado em políticas semelhantes.

Fonte: A Postagem

“Os pais têm medo dos filhos, de dizer não”

infancia-triste-640x427

Os dados são alarmantes. O Brasil já é o segundo país do mundo que mais consome Ritalina, medicação tarja preta usada para controlar o Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH), que tem como principais usuários crianças e adolescentes.

Para o médico pediatra Daniel Becker, o quadro é sintomático das condições sociais à quais a infância está sujeita atualmente. Falta de convívio entre a família, crianças confinadas dentro de casa que precisam ser constantemente distraídas e pais que superprotegem e não conseguem dizer “não” aos filhos são alguns desses fatores. “Ao invés de tentar entender da onde vêm esses sintomas, temos preferido mais uma agressão que é a medicalização”, diz.

Em conversa com o Carta Educação, o especialista com 20 anos de experiência na área e cujo TEDx “Crianças, já para fora” teve mais de 150 mil visualizações no YouTube falou sobre os principais “pecados” que estamos cometendo contra a infância e os possíveis caminhos para solucioná-los.

Carta Educação: O senhor fala que, hoje, estamos diante de uma terceirização da infância. Como se dá esse processo?

Daniel Becker: A terceirização da infância acontece em todos os níveis e classes sociais, mas é mais acentuada nas classes média e alta. Os pais estão convivendo muito pouco com seus filhos. Há casais que não se preparam para tê-los, não levam em consideração que um filho ocupa muito tempo e energia, que exige dedicação. Logo, quando chega uma criança na família, sua criação acaba terceirizada em uma creche, por uma babá. Os pais acabam vendo seus filhos, muitas vezes, só na hora de dormir, fazem poucas refeições e passeios juntos, enfim, acabam tendo poucos momentos de convivência. Isso tudo é agravado pelas condições que a sociedade atual impõe: longas horas de trabalho, exigindo, inclusive, que as pessoas trabalhem fora do expediente, à distância nos seus tablets e celulares. Nas classes baixas, a situação é, muitas vezes, mais grave porque nem sempre os pais têm acesso à creche e, para trabalhar, precisam deixar seus filhos com vizinhos, cuidadores. Isso quando não precisam deixar as crianças sozinhas em casa. Nesse contexto, elas ficam totalmente confinadas porque os pais não deixam sair justamente pelas condições de violência das comunidades. Logo, ficam na televisão, nos celulares o dia inteiro.

Carta Educação: Como essa falta de convívio entre pais e filhos afeta negativamente as novas gerações?

DB: Terceirizar a educação é ruim para as crianças, é ruim para os pais. Os filhos acabam sendo educados por pessoas que, muitas vezes, compactuam com outros valores. Além disso, a criança não cria memórias afetivas em família por meio das quais se constrói a coisa mais importante para se educar alguém, a intimidade. Só na intimidade consegue-se dar limites, orientar, conversar sobre assuntos profundos quando mais velhos. Sem convivência não há intimidade e as crianças ficam aleijadas de seus pais que são as figuras guias, afetivas, mais importantes para elas.

CE: As crianças estão também cada vez mais conectadas. Sabemos que a tecnologia traz muitos benefícios, mas quais os efeitos perversos de uma infância confinada, na qual precisam ser constantemente distraídas?

DB: Costumo dizer que a tecnologia não é só inevitável, mas desejável. O mundo moderno caminha para que os aparelhos eletrônicos, principalmente, os telefones celulares sejam a base da nossa comunicação, da circulação de ideias. Mas o sobreuso é prejudicial em todos os sentidos, inclusive, para a saúde física e estudos americanos mostram que as crianças ficam, em média, de 8 a 10 horas conectadas por dia. Isso é, obviamente, muito ruim porque a vida não pode acontecer só no smartphone, tem que acontecer do lado de fora também, nas interações olho a olho.

Na verdade, as crianças migram para a tecnologia porque estão confinadas em casa. As escolas têm cada vez menos espaços abertos e livres e mais sala de aula, conteudismo. Com a energia explosiva que as crianças têm, o único jeito de domar alguém confinado é oferecendo distração permanente e, claro, aquela oferecida pelos telefones é irresistível. Só que o excesso de distração que essa tecnologia traz incapacita a criança para o ócio, para o tédio, para estar com a mente vazia, distraída criando suas próprias histórias. E é tão importante usar a imaginação, a criatividade, é assim que se treina o cérebro para ser criativo e imaginativo no futuro – habilidades muitos importantes, inclusive, para o sucesso profissional. O antídoto para isso tudo é sair de casa, ir para a rua, para a natureza e brincar livremente.

CE: Sobre a mercantilização da infância, é possível educar longe da onda consumista que nos acomete? De que maneira?

DB: A mercantilização da infância se dá, principalmente, em dois ambientes. Primeiro, no ambiente das telas. A televisão, por exemplo, veicula o pior tipo de publicidade que é aquela dirigida à infância, uma publicidade covarde, pois vale-se da incapacidade da criança de distinguir entre realidade e fantasia, usa o amor que ela tem por personagens para vender comida tóxica, brinquedos caros e desnecessários. Além disso, vende marcas da moda e modelos muitas vezes adultizados de aparência. Outro ambiente onde se dá a mercantilização da infância é o shopping, que virou o programa de fim de semana da família brasileira. Os pais levam as crianças para ficar vendo vitrines e pessoas comprando e comprando, fazendo disso o grande objetivo da vida delas. São colocadas naquelas gaiolas cheias de brinquedo enquanto os pais fazem compras, depois vão para uma loja de fast food comer comida ruim, comer doce, engordar. Nesse contexto, as crianças vão absorvendo os valores do consumismo, isto é, a hipervalorização da aparência, valores sexistas, de futilidade, do ter melhor do que o ser. Isso tudo é muito ruim para o desenvolvimento de um indivíduo humanista, antenado ao que acontece na sociedade, participativo. Então, é preciso afastar as crianças desses dois lugares, das telas e do shopping.

CE: Muitos especialistas criticam o excesso de atividades extracurriculares nas quais os pais matriculam seus filhos na ânsia de torná-los adultos mais competitivos. Como o senhor enxerga isso?

DB: Hoje, temos uma cultura que chamamos de escolarização do aprendizado. Existe uma ilusão que a criança só aprende a partir do adulto, então ela fica com a agenda cheia de programas ministrados por adultos. Com três anos, sai da natação, vai para o futebol, depois vai para a capoeira para depois ter aula de inglês. É massacrante. Nas escolas, é a mesma coisa, sai de uma aula entra em outra, não tendo tempo livre de pátio. Só que a gente está esquecendo que isso não prepara a criança para o mundo. As habilidades mais importantes para ser uma criança feliz e um adulto preparado para a vida e, portanto, também feliz são adquiridas no livre brincar, na interação livre com outras crianças e com a natureza. Daí nasce a empatia, a inteligência emocional, a capacidade de tomar decisões, de negociações, de enfrentar desafios e medos, avaliar riscos, as habilidades corporais, etc. A arte de brincar quando criança é a arte de saber viver quando adulto.

CE: O senhor também afirma que os pais passaram a colocar seus filhos em um trono. Quão importante é colocar limites e ter uma relação de autoridade com as crianças? Por que a superproteção da infância é nociva?

DB: A superproteção é consequência dessa falta de convivência, de intimidade. Os pais têm medo dos filhos, de dizer não, dos ataques de birra. Mas os pais que superprotegem impedem que a criança experimente a vida e aprenda com as experiências negativas e sabemos muito bem a importância de errar, de aprender com as frustrações, de entender que o mundo não existe para nos servir, de ter que achar nosso lugar no mundo e saber que isso envolve um processo de sofrimento, de não atendimento das nossas expectativas. Privando a criança das frustrações próprias da infância como ralar um joelho, não conseguir fazer um dever de casa, brigar com os amigos, não ganhar um brinquedo induzimos a formação de crianças narcisistas e com muita dificuldade de lidar com qualquer condição negativa. No futuro, serão adultos mais egoístas, com menos empatia e, provavelmente, infelizes. Os pais não devem se interpor entre os filhos e o mundo. É importante dizer aqui que isso é uma análise das condições sociais da infância, não uma análise para culpabilizar as famílias e que muitos desses “pecados” em pequena dose não fazem mal algum. A criança pode comer um docinho de vez em quando, só não pode comer todo dia. Uma criança que vai uma vez por mês no shopping não vai se tornar uma consumista frenética e assim por diante.

CE: O senhor diz que a medicalização da infância é o pior dos pecados que cometemos hoje contra a infância. Por que e como evitá-la?

DB: Todos esses fatores negativos que elenquei acima tornam as crianças sintomáticas. Elas começam a engordar, dormir mal, ficar birrentas, rebeldes, não prestar atenção, não assimilar o conteúdo escolar, ficar melancólicas, estressadas, mimadas. E, ao invés de tentar entender da onde vêm esses sintomas, analisar essas condições sociais da infância, temos preferido mais uma agressão à infância que é a medicalização. Nos Estados Unidos, 15% de todos os alunos do Ensino Médio estão tomando remédios psiquiátricos, isto é, um em cada seis. E como evitar a medicalização? No particular, pensando no que está acontecendo com nosso filho e, como sociedade, no que está acontecendo com a infância. Uma vez que há uma criança sintomática, existem muitas formas de ajudá-la que não envolvem remédios. Pode-se rever o convívio daquela criança com a família, reduzir o stress que ela é submetida, aumentar o tempo dela ao ar livre, buscar terapias, além de exigir políticas públicas que ajudem nesse sentido.

CE: O senhor propõe como solução mudar nossa relação com o tempo e o espaço. De que maneira? É possível falar de ocupação do espaço público com cidades cada vez mais violentas?

DB: Proponho que pelo menos 10% do nosso tempo seja dedicado aos nossos filhos. Passar uma hora, uma hora e meia convivendo por dia. Tomar o café da manhã juntos, contar uma história antes de dormir são momentos que geram intimidade, afeto, capacidade de educar. A segunda dimensão é mudar a relação com o espaço. Temos uma série de evidências mostrando como o contato com a natureza traz benefícios cognitivos, psíquicos, físicos, para o presente e para o futuro. A natureza melhora a imunidade, favorece a atenção, traz mais felicidade, melhora a memória, a capacidade de absorção de coisas que são ensinadas, favorece a empatia, a disposição física, reduz a obesidade e a insônia. Neste contexto, deve-se buscar o livre brincar. A criança deve brincar livremente com outras crianças, criar jogos, subir em árvore, correr, enfim, participar dessa festa que é a infância. As famílias podem favorecer esse contato, mas, é claro, também precisamos exigir de nossos governantes que haja espaço público para ocupar e que ele seja seguro, além de políticas públicas que nos permitam explorar espaços naturais e conviver. É minha esperança para que possamos ter cidades melhores e cidades melhores implicam em pessoas mais felizes.

Fonte: Carta Capital

Mais de 100 pessoas saem de manicômios para viver em residências na zona leste em São Paulo

pacientes_1482515926

Noventa pessoas iniciaram a partir desse final de 2016 um novo ciclo em suas vidas. São os moradores dos dez serviços de Residência Terapêutica (SRT) implantados pela atual gestão, para receber quem ficou por décadas internado em hospitais psiquiátricos e manicômios pelo interior do Estado. Até 2012 havia três em funcionamento na Coordenadoria Regional de Saúde Leste (CRSL), hoje são 13 nos sete distritos.

No próximo dia 27 serão recebidos os 13 futuros residentes – hoje ainda internados nos hospitais psiquiátricos de Sorocaba e Piedade – das SRTs de Itaquera, São Mateus e São Miguel. Essa semana, as casas receberam 25 egressos do Hospital Psiquiátrico Santa Cruz e clínica psiquiátrica, ambas em Santo do Pirapora.

Ao cruzar o portão que separou suas vidas da comunidade, nenhum olhar para o passado, nenhuma lágrima, pelo contrário, alegria no rosto e ansiedade de chegar ao novo lugar. Liliane Nogueira, agora moradora da SRT São Miguel 1, não parou um só instante de cantar, puxar assunto e falar da “amiga” Rosalina, personagem que ora inspirava medo e ora desdém. Ao olhar pelo vidro do carro, ela indaga: “é uma lagoa suja?”, referindo-se ao rio Tietê

Nos dois veículos da CRSL e da SES, com técnicos da gestão municipal, Estado e da Associação Padre Moreira, OSS que gerencia as SRTs e Caps em São Mateus, São Miguel e Itaquera, eles viajaram trazendo pouca bagagem, alguma lembrança e um sorriso de gratidão por estar deixando na poeira sofrimentos.

Ao chegar em suas residências, uma sucessão de sorrisos mesclada a estranheza de um lugar onde agora tem seus pertences. “Essa cama é só minha”, perguntava a Cleonice, que ficou por vários anos no hospital mesmo após ter tido alta médica. A família não apareceu para busca-la. Do limão Cleonice fez uma limonada, ela passou a trabalhar no Hospital Psiquiátrico Santa Cruz. Em seu prontuário há o pedido de demissão. “Estou muito feliz aqui, a casa é linda”, comemora Cleonice.

Cidinha também não contém a felicidade do novo espaço que a acolheu. Foi internada jovem, segundo ela, pelo pai alcoólatra. “Perdi minha mãe…apanhava muito do meu pai. Ele era ruim”, conta com dificuldade, sem abandonar o sorriso e a gratidão de estar perto de sua amiga, Carminha, deficiente visual, que teve as duas pernas amputadas, mas segue encantando com o vozeirão de Coral.

Essas e outras histórias serão conhecidas do mundo fora do manicômio. É na comunidade onde começa a nascer uma nova experiência para esses homens e mulheres, que a partir de agora começarão a escrever.

O processo de desinstitucionalização iniciou ainda no primeiro semestre com visitas e entrevistas dos técnicos da Saúde Mental da Secretaria Municipal de Saúde, CRSs, supervisões e das organizações sociais de saúde (OSS) Santa Marcelina e Associação Padre Moreira aos pacientes nos hospitais e clínicas psiquiátricas.

Em todas as residências, os egressos foram recebidos pela coordenadora Regional de Saúde Leste, Claudia Afonso, a interlocutora de Saúde Mental, Paulete Secco Zular, supervisores técnicas de saúde, Raquel D´Elia (Itaquera), Eliete Fávaro (São Miguel) e Roberto Madeira (São Mateus) e equipe da Saúde Mental. Na RT Itaquera até um bolo foi feito por um dos moradores para receber os novos amigos.

Conviência

Para auxiliar nessa convivência, cada SRT conta com três acompanhantes diurnos e três noturnos, um técnico de enfermagem, um auxiliar de enfermagem, além do coordenador da residência. Compete à equipe estimular o convívio, o diálogo, cuidar da alimentação, dos cuidados pessoais e de apoio ao atendimento de saúde, que será no CAPS e nos serviços de referência do território, onde está localizada a unidade.

As residências terapêuticas são um importante incremento para a Rede de Atenção Psicossocial (RAPS), ampliada expressivamente a partir de 2013. De três residências terapêuticas (Ermelino Matarazzo, Itaquera e Itaim Paulista) até 2012, que abrigam 24 pessoas, agora a Leste conta com 13 SRTs, o que significa 114 pessoas desinstitucionalizadas residindo em comunidade.

Reclassificação dos CAPS

Outra importante medida para fortalecer esse apoio, criar uma Rede de Atenção Psicossocial foi a reclassificação dos quatro Centros de Atenção Psicossocial, que passaram a atender 24h, totalizando a oferta de 33 leitos de hospitalidade noturna. Hoje há 37 equipamentos na saúde mental da Leste e o Programa De Braços Abertos, implantado em Cidade Tiradentes, é responsável pela captação e o acompanhamento de mais de 300 pessoas em situação de rua desde 2015.

Humanização

Com a implantação da RAPS – Rede de Atenção Psicossocial, que cria a atenção desde a UBS até a residência terapêutica, a ampliação dos serviços de Caps II para Caps III, que permite a hospitalidade noturna para casos de maior sofrimento, a implantação da Residência Médica em Psiquiatria, o Programa De Braços Abertos, a reserva de 10% dos leitos em hospitais gerais para saúde mental, “melhorou a capacidade de atender”, comemora Paulete Secco Azular, interlocutora de Saúde Mental da CRSL.

A coordenadora da CRSL, Claudia Afonso, ressalta que os investimentos em “sete unidades de Caps Adulto (um em cada Subprefeitura), seis unidades de Caps Infantil, seis de Caps Álcool e Drogas (AD), quatro Centros de Convivência (Cecco), 13 residências terapêuticas (RT) e uma Unidade de Acolhimento (UA AD) em Ermelino Matarazzo, possibilitaram qualificar o atendimento, o acompanhamento de uma média de 6 mil pessoas”.

Leitos em hospitais gerais

A implementação da Lei Federal 10.216 que trata da Reforma Psiquiátrica, encerrou de vez a participação dos hospitais Nossa Senhora do Caminho (144 leitos), Nossa S. de Fátima (140 leitos), São João de Deus (130 leitos) na rede de cuidados. Por outro lado, houve a abertura de 113 leitos em hospitais gerais; 18 leitos no Hospital Municipal de Ermelino Matarazzo, 29 no Hospital Municipal Tide Setúbal (São Miguel), 24 no Hospital Geral de Guaianases, 10 no Hospital Municipal Cidade Tiradentes, 15 no Hospital Waldomiro de Paula (Itaquera) e 17 no Hospital Santa Marcelina do Itaim Paulista, para tratar as pessoas em situações agudas como seres humanos.

Serviço:
Novas SRTs entre 2013-2016

Gestão compartilhada com a APS Santa Marcelina

SRT Itaim Paulista – Rua Barena, 289

SRT Cidade Tiradentes – Rua Ricardo da Costa, 261

SRT Guaianases I – Rua Comandante Carlos Ruhl, 186

SRT Guaianases II – Rua Serra do Mar, 234

SRT Guaianases III – Rua Serra do Mar, 60

Gestão compartilhada com a Associação Padre Moreira

SRT São Mateus I – Rua Joaquim Gouveia Franco, 899

SRT São Mateus II – Rua Dr. Manso Sayão Filho, 582

SRT São Miguel I – Rua Evangelina Ferreira Destro, 193

SRT São Miguel II – Rua Taiuvinha, 215 – Vila Jacuí

SRT Itaquera – Rua Marcondes Homem de Melo, 597 – Jd Nossa Senhora do Carmo

SRTs existentes até 2013

SRT Itaim Paulista (masculina) – Rua Cembira, 954
Tel. 2035-5891

SRT Itaquera (feminina) – Rua Fontoura Xavier, 1.433
Tel. 2056-3050

SRT Ermelino Matarazzo (masculina) – Rua Victoria Semionato, 538
Tel.: 2214-1442

Fonte: Portal da Prefeitura de São Paulo

 

Filme sobre Os Insênicos já tem o trailer disponível

O curta-metragem “Os Insênicos”, dirigido por Rafaela Uchoa, conta a história do grupo de teatro baiano de mesmo nome do filme. O documentário narra através da vida de uma das integrantes, a atriz e militante Helisleide Bonfim, um pouco da trajetória dos “Insênicos”. O grupo, que já tem seis anos na estrada, é liderado pela atriz e psicóloga Renata Berenstein e formado por atores com transtornos mentais.

O filme será exibido em breve em mostras e festivais. Por enquanto, confiram o trailer:

SINOPSE

Dos manicômios aos palcos da vida, Os Insênicos reinventam a loucura através da arte. Formado por dezesseis atores portadores de transtornos psíquicos, o grupo de teatro já tem seis anos de existência e está na sua quarta montagem. Helisleide é uma das atrizes do grupo que teve sua vida totalmente transformada pelo teatro, através da história dela o espectador conhecerá Os Insênicos.

Direção: Rafaela Uchoa
Roteiro: Márcia Luiza Araújo e Rafaela Uchoa
Edição: Márcia Luiza Araújo
Câmeras: Jayne deAna Rafaela Uchoa Zélia Uchoa
Imagens Balada de Amor :Glauco Barboza e Rafaela Uchoa
Imagens Os Insenicos: Davi Ramos
Trilha sonora: Boing e Rebeca Matta
Finalização: Gabriel Barretto
Projeto Gráfico: Bárbara Gesteira Manuela Gomes
Músicas: Populations (Rebeca Matta e Ronei Jorge)
Juninho Costa – Guitarra
João Meirelles – Programação Eletrônica
Emanuel Venancio – Bateria
Cadinho Almeida – Baixo
Yô, yô. Yô, yô, yô, yô. (Boing)
Boing – Produção musical

Os Insênicos é formado por:
Anderly da Cruz
Angelita Leite
Antoniel Damásio
Diana Paiva
Dionaldo de Andrade
Gilvanélio Araújo
Girlene Almeida
Helisleide Bonfim
Josuelinton Santos
Lívia Souza
Maria de Fátima Francisca
Raimundo dos Santos
Renata Berenstein
Sonia Ferreira

Não percam o evento “Saúde mental e atenção psicossocial em emergências humanitárias”

crp

Na próxima segunda-feira, 31, acontecerá em São Paulo, o encontro “Saúde mental e atenção psicossocial em emergências humanitárias”. O evento congrega diversos atores envolvidos com a temática, como pesquisadores, profissionais que atuam na área, pessoas afetadas por impactos de desastres, muitas vezes potencializados pela falta de gestão de riscos ou de políticas públicas eficientes para eliminar ou minimizar seus efeitos.

Evento gratuito e com transmissão online!
Acesse: http://www.crpsp.org.br/emergenciasedesastres/inscricoes.aspx e faça sua inscrição!

Relatório alertava governo de SP sobre tortura em manicômio que teve motim e fuga

Há exatamente um ano, uma equipe do MNPCT (Mecanismo Nacional de Prevenção e Combate à Tortura) analisou o Hospital de Custódia e Tratamento Psiquiátrico de Franco da Rocha, o antigo Manicômio Judiciário da Grande São Paulo, que teve motim e fuga de 55 internos na tarde da última segunda-feira (17). Até a divulgação desta reportagem, 51 haviam sido encontrados e internados novamente. Desde o ano passado, a SAP (Secretaria da Administração Penitenciária) tem ciência de que foi relatado indícios de tortura, bem como de tratamentos ou penas cruéis, desumanas ou degradantes” no local, recebendo diversas recomendações para melhora do ambiente.

A visita teve caráter sigiloso, de modo que nem a direção, nem as pessoas privadas de liberdade sabiam que membros do MNPCT iriam ao local. A equipe foi recebida pelo diretor da unidade, Luiz Henrique Negrão, que não colocou nenhum obstáculo no trabalho do mecanismo.

O relatório aponta que a unidade foi escolhida para ser analisada “pelo histórico de denúncias de agressões e maus-tratos acumulado”, além da “importância de ser abordada a problemática da aplicação de medidas de segurança, especialmente nos chamados manicômios judiciários”.

Durante a visita, os internos permaneciam nos pátios das colônias conversando, limpando os quartos, organizando seus pertences, lavando louça ou roupa, entre outras atividades. Para os membros do MNPCT, isso revelou, de cara, “uma rotina sem atividades terapêuticas coletivas, de lazer e voltadas para o meio externo à instituição. O aspecto asilar e mortificador do espaço físico atinge os pacientes, cronificando-as(os) pela ausência de perspectiva de tratamento e de desinstitucionalização“.

Segundo os registros da unidade, os trabalhos desenvolvidos pelos setores de psicologia e assistência social da instituição não se articulam com serviços da rede pública existentes e nem apontam para a construção de um projeto terapêutico vinculado aos interesses dos pacientes em relação à sua vida depois da internação. “O acompanhamento técnico é notavelmente insuficiente diante das necessidades das pessoas internadas. Os profissionais de saúde concentravam-se, sobretudo, nas “clínicas”, mesmo local onde anteriormente se localizavam as “salas de isolamento”, conforme informado pela direção”, relata a análise.

“Embora tenhamos conhecido as salas de acompanhamento psicológico, social e de terapia ocupacional, notamos que nenhum atendimento estava sendo realizado durante a visita”, complementa. A este respeito, a própria direção da unidade assumiu a necessidade de que fossem contratados mais terapeutas ocupacionais para compor a equipe técnica da instituição.

Também durante a visita, foi possível observar a presença de Agentes de Segurança Penitenciária (ASP) no convívio com os pacientes a todo o momento, seja no pátio ou nos pavilhões que servem de dormitório.

“Ainda que alguns profissionais de segurança se empenhem em tratar os pacientes com dignidade, falta-lhes formação e experiência técnica para desempenhar um papel que fosse efetivamente terapêutico. A presença dos ASPs em todos os espaços da unidade revela a dimensão disciplinadora no cotidiano da instituição”, aponta o relatório.

De acordo com a análise, o “carácter disciplinador hegemônico” do local “contraria a definição legal de que a pessoa com transtorno mental seja tratada com humanidade e respeito e no interesse exclusivo de beneficiar sua saúde, visando alcançar sua recuperação pela inserção na família, no trabalho e na comunidade”.

O MNPCT afirma, ainda, que recebeu inúmeros relatos de agressões cometidas por funcionários da instituição, tanto os ligados à segurança da unidade quanto os da área de saúde. “Agressões verbais, humilhações, espancamentos, uso da contenção como punição e como rotina institucional fazem parte do tratamento violador dispensado aos pacientes”.

As considerações finais da visita ao Hospital de Custódia e Tratamento Psiquiátrico é de que “os aspectos observados dialogam com o que há muito é apontado por diversas organizações, entidades e movimentos de saúde mental e direitos humanos sobre os chamados manicômios judiciários. Tais instituições, longe de oferecem tratamento a pessoas com transtorno metal que se envolveram em situações criminais, são marcadamente manicomiais, desrespeitando a legislação vigente e as diretrizes da saúde mental. Sobretudo,são instituições que violam sistematicamente os direitos humanos das pessoas internadas, sendo, inclusive, palcos freqüentes de tortura e outros tratamentos ou penas cruéis, desumanos ou degradantes. As condições institucionais, nesse sentido, implicam na destituição de qualquer possibilidade terapêutica”.

Assim, a sugestão é de que sejam oferecidas “condições de respeito aos direitos e à dignidade das pessoas internadas na unidade, construir um serviço de atendimento à pessoa com transtorno mental em conflito com a lei de acordo com a legislação vigente e com as normativas internacionais, prevenir os maus tratos e a tortura, bem como oferecer condições de desinstitucionalização e retorno ao convívio livre e coletivo para aqueles que estão institucionalizados”.

Catarina Pedroso, perita do MNPCT e que participou da visita técnica, afirmou à Ponte Jornalismo que percebeu que a situação do local “é de violação dos direitos das pessoas privadas de liberdade”: “As pessoas encontram-se sem o devido acompanhamento terapêutico e, ao mesmo tempo, submetidas à lógica da disciplina prisional, o que agrava sua condição de sofrimento psíquico”, disse.

A perita afirmou que foi possível “observar as práticas institucionais, que incluíam o uso rotineiro de contenção mecânica e química, inclusive como forma de punição, e agressões às pessoas privadas de liberdade”. Ainda de acordo com ela, “na unidade, o que se vê são vidas impedidas de serem desfrutadas, pela institucionalização e pelas violações que lhes são impostas. O ambiente é mortífero, pois, de fato, não há possibilidade de se levar uma vida com dignidade em um espaço prisional e manicomial”.

De acordo com a legislação e as normativas nacionais e internacionais, as pessoas com transtorno mental devem ser tratadas com dignidade e acompanhadas em serviços da Rede de Atenção Psicossocial. “No entanto, o que encontramos foi um ambiente asilar, extremamente degradante, em que as pessoas não tinham uma perspectiva de desinstitucionalização, que deveria acontecer através do contato com familiares e com os serviços da rede de saúde mental da região”, complementa Catarina.

O local

O HCTP (Hospital de Custódia e Tratamento Psiquiátrico “Professor André Teixeira Lima”) é uma instituição voltada ao cumprimento de medidas de segurança para pessoas que, a despeito de terem cometido algum crime, foram consideradas inimputáveis por apresentarem transtorno mental no momento do ato ilícito. A unidade é, portanto, vinculada à Secretaria de Administração Penitenciária (SAP) do Estado de São Paulo, apesar de um de seus objetivos centrais ser a promoção de tratamento para as pessoas privadas de sua liberdade

Construído no início do século XX, o local localiza-se na borda da região metropolitana de São Paulo e que guarda as características de um manicômio tradicional. “É importante destacar que o município de Franco da Rocha é marcado pela presença histórica de instituições de privação de liberdade: além de dois HCTPs, há ainda outras cinco unidades prisionais, uma unidade da Fundação Casa e o Hospital Psiquiátrico Juqueri, inaugurado no final do século XIX, abrigando uma enorme quantidade de pessoas”, afirma o relatório.

De acordo com o “Censo” populacional realizado pela própria instituição sobre as pessoas internadas no HCTP até dezembro de 2014 (foram analisadas 401 pessoas das S72 que lá estavam):

• 62% tinham entre 18 e 40 anos, 33% entre 41 e 59 anos e 5%, acima de 60 anos, configurando um público majoritário relativamente jovem;

• 75% estavam internados entre zero e cinco anos na unidade, 21% entre cinco e dez anos, 2% estavam na unidade entre 10 e 15 anos e, por fim, aproximadamente 1% há mais de 15 anos.

• quase a metade (45%) tem respaldo familiar presente, enquanto 33% têm respaldo relativo e 22% ausente.

• a maior parte (54%) tem vínculos familiares no interior, enquanto 7% têm vínculos em outros estados. No entanto, 38% têm vínculos na grande São Paulo.

De acordo com a análise, os perfis mostram que, dentre os pacientes, muitos poderiam manter contato permanente com seus familiares, assim como poderiam utilizar serviços públicos próximos a suas regiões de origem. “Ademais, o fato de a população ter majoritariamente entre 18 e 40 anos aponta uma perspectiva importante de construção de projetos de vida após a desinstitucionalização”.

Outro lado

O governador Geraldo Alckmin (PSDB) afirmou em coletiva de imprensa que a rebelião ocorreu porque os internos souberam que cinco pessoas do local seriam transferidas para outros presídios.

Procurada desde a tarde desta terça-feira (18/10), a SAP (Secretaria da Administração Penitenciária) não se posicionou sobre o relatório até a divulgação desta reportagem.

Fonte: Ponte.org

 

O poder da psiquiatria

O que está por trás do DSM-5 e sua tentativa de transformar a experiência do sofrimento em patologia a ser tratada

Quando confrontados a categorias como “saúde”, “doença”, “normal” e “patológico”, a maioria dos psiquiatras atuais tenderá a aceitar que tais definições são, basicamente, objetos de um “discurso científico”. Isso significa, grosso modo, que a pretensa objetividade de suas distinções deve estar assegurada por um discurso que privilegia fenômenos mensuráveis, quantificáveis e claramente diferenciáveis através de um conjunto finito e operacional de caraterísticas de base. Esta seria a melhor maneira de impedir que tais metaconceitos fossem tragados por uma interminável discussão ideológica, com suas querelas sem fim de escolas a respeito da natureza do que orienta nossa atividade na clínica do sofrimento psíquico.

Foi com essa crença em vista que a psiquiatria dos últimos quarenta anos desenvolveu um dos mais impressionantes esforços de classificação de doenças e homogeneização de diagnósticos que se tem notícia. Desde o advento do DSM-3, a psiquiatria teria, enfim, encontrado o caminho em direção a sua segurança ontológica, deixando para trás décadas de imprecisão. Uma imprecisão que seria fruto do uso de vocabulários extremamente valorativos, em vez de meramente descritivos, assim como da fascinação por etiologias fantasistas. Pois, ao invés de se preocupar com a definição de causas dificilmente observáveis (como, por exemplo, afirmar que certa fobia de animal é resultado de conflitos inconscientes com a figura paterna), melhor seria privilegiar um pensamento categorial que organiza distinções a partir de uma certa lógica de conjuntos no qual o esforço clínico fundamental consiste em definir sintomas e condições que, se colocados em relação, podem individualizar um comportamento patológico. Desta forma, nasceria o milagre de um saber, para além de disputas teóricas, observável, imune aos juízos subjetivos do médico-observador e, acima de tudo, eficaz.

Esta história da marcha irresistível da psiquiatria em direção à ciência é normalmente contada em tons edificantes. A partir do início dos anos 1970, vários psiquiatras começaram a fazer testes, demonstrando a incrível variação de diagnósticos entre os profissionais. Por outro lado, a própria psiquiatria era bombardeada de todos os lados por aqueles irresponsáveis que tentavam demonstrar que categorias clínicas eram mitos ou, no mais das vezes, mecanismos de exclusão e controle social. Neste ambiente hostil, psiquiatras como Robert Spitzer e John Feighner teriam sido capazes de tirar a psiquiatria da defensiva por meio de uma profunda reforma metodológica que, em um curto espaço de tempo, modificou radicalmente o que entendíamos até então por “clínica”.

Pois tal reforma metodológica teria sido acompanhada pelo desenvolvimento exponencial do saber neurológico, assim como do desenvolvimento de medicamentos capazes de combater com eficácia aquilo que, erroneamente, entendíamos fluidamente por “impasses existenciais” capazes de afetar nossa performance no trabalho, nossos papéis sociais e nossa autonomia do desejo. A clínica aparecerá, então, cada vez mais submetida a uma farmacologia em vias irresistíveis de aprimoramento. Neste sentido, não haveria razão alguma para se inquietar do fato de que por volta de 70% dos experts que trabalharam para o DSM-5 terem, em sua carreira recente, vínculos financeiros com a indústria farmacêutica. A comunidade entre indústria farmacêutica e comunidade psiquiátrica seria exclusivamente fundada nas promessas abertas pelo progresso da ciência.

Também não haveria razão alguma para se perguntar se não haveria uma articulação perversa entre o fechamento dos asilos, a redução dos gastos públicos em saúde mental e um triplo processo de reforço da posição da psiquiatria. Processo triplo marcado pela medicalização, pela institucionalização crescente das discussões através da hegemonia da American Psychiatry Association (APA) e pela tecnicização crescente dos diagnósticos.

Doença e política

Tudo isso poderia interessar apenas à uma comunidade limitada, composta por todos aqueles profissionais designados para tratar de problemas de saúde mental (psicólogos, psiquiatras, psicanalistas, entre outros). Mas talvez seja o caso de colocar algumas questões. Pois, e se categorias como “saúde”, “doença”, “normal” e “patológico”, principalmente quando aplicadas ao sofrimento psíquico, não forem meros conceitos de um discurso científico, mas definições carregadas de forte potência política?  Por um lado, uma sociedade organiza seus modos de intervenção nas populações, nos corpos e nos afetos por meio da definição do campo das doenças e das patologias. No interior desses modos de intervenção, não é apenas a experiência subjetiva do sofrimento do paciente que orienta a clínica, mas também padrões esperados de conduta social de forte conotação moral (ou mesmo estética e política). Por exemplo, quando o DSM-4 descrevia o transtorno de personalidade narcísica, ele não temia descrever tal transtorno, apelando, entre outras coisas, para quadros morais do tipo: “Eles esperam ser adulados e ficam desconcertados ou furiosos quando isto não ocorre. Eles podem, por exemplo, pensar que não precisam esperar na fila, que suas prioridades são tão importantes que os outros lhes deveriam mostrar deferência e ficam irritados quando os outros deixam de auxiliar em ‘seu trabalho muito importante’”. O mínimo que se pode dizer é que tal quadro nada diz sobre o sofrimento psíquico, mas diz muito a respeito dos padrões disciplinares e morais que nossa sociedade tenta elevar à condição de normalidade médica.

Exemplo ainda mais caricato são os oito critérios fornecidos para definir o transtorno de personalidade histriônica: 1) desconforto em situações nas quais não se é o centro das atenções; 2) comportamento inadequado, sexualmente provocante ou sedutor; 3) superficialidade na expressão das emoções; 4) constante utilização da aparência física para chamar a atenção sobre si próprio; 5) discurso excessivamente impressionista; 6) teatralidade e expressão emocional exagerada; 7) ser facilmente sugestionável; 8 ) considerar os relacionamentos mais íntimos do que realmente são. Em um manual que se vangloriava pela clareza de seus “critérios específicos”, impressiona exatamente a falta de especificidade de um quadro clínico tão amplo que poderia englobar praticamente qualquer pessoa com o mínimo de senso de autocrítica. Há de se perguntar se estamos diante de uma falha ou da exposição sintomática de uma lógica que perpassa, em maior ou menor grau, todo o poder psiquiátrico atual com sua tendência muda, como vemos no texto de Gilson Ianinni e Antonio Teixeira,  de “psiquiatrização da vida cotidiana”.

Se nos perguntarmos sobre a natureza de tal lógica, valeria a pena lembrar como a experiência da doença, ou seja, a experiência de se compreender como doente, não é apenas o resultado da descrição de variações em marcadores biológicos específicos. Nem é a doença a mera definição de situações de sofrimento. Há várias experiências de sofrimento que não vivenciamos como doença, mas como conflitos relativamente naturais em processos globais de transformação e de desenvolvimento. Na verdade, há uma dimensão na qual estar doente, no que diz respeito à saúde mental, aparece como o sofrimento advindo da limitação na capacidade de ação e da fixidez em certos comportamentos. O que não poderia ser diferente se aceitarmos que estar doente é, a princípio, assumir uma identidade com forte força performativa. Ao compreender-se como “neurótico”, “depressivo” ou portador de “transtorno de personalidade borderline”, o sujeito nomeia a si através de um ato de fala capaz de produzir performativamente efeitos novos, de ampliar impossibilidades e restrições. Uma patologia mental não descreve uma espécie natural (natural kind), como talvez seja o caso de uma doença orgânica, como câncer ou mal de Parkinson. Como nos lembra Ian Hacking, ela cria performativamente uma nova situação na qual os sujeitos se veem inseridos.

Neste sentido, há de se perguntar o que está por trás dessa tendência de psiquiatrização da vida cotidiana levada a cabo pelo DSM-5. Tendência que realiza uma progressão presente na própria base dos DSMs. A partir de agora, o número de patologias mentais se eleva a 450 categorias diagnósticas. Elas eram 265 no DSM-3, lançado em 1980, e 182 no DSM-2, de 1968.

De fato, com modificações, como as que diminuem o luto patológico de dois meses para 15 dias ou que cria categorias bisonhas como o transtorno disruptivo de desregulação de humor, o vício comportamental (behavioral addiction) ou o transtorno generalizado de ansiedade, dificilmente alguém que passa por conflitos psíquicos e períodos de incerteza entrará em um consultório psiquiátrico sem um diagnóstico e uma receita médica.

Por trás desta estratégia clínica, com sua negação de perspectivas etiológicas, há a tentativa equivocada de transformar toda experiência de sofrimento em uma patologia a ser tratada. Mas uma vida na qual todo sofrimento é sintoma a ser extirpado é uma vida dependente de maneira compulsiva da voz segura do especialista, restrita a um padrão de normalidade que não é outra coisa que a internalização desesperada de uma normatividade disciplinar decidida em laboratório. Ou seja, uma vida cada vez mais enfraquecida e incapaz de lidar com conflitos, contradições e reconfigurações necessárias. Há de se perguntar se tal enfraquecimento não será, ao final, o resultado social dessas modificações no campo da saúde mental patrocinadas pelo DSM. Há de se perguntar também a quem tal situação interessa.

Por Vladimir Safatle, professor livre-docente no Departamento de Filosofia da USP