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A diretora Fernanda Vareille

A diretora Fernanda Vareille

“A loucura entre nós”, filme dirigido por Fernanda Fontes Vareille, lança um olhar sobre os corredores e grades de um hospital psiquiátrico, buscando personagens e histórias que revelem as fronteiras do que é considerado loucura. Através, principalmente, de personagens femininas, o documentário exala as contradições da razão, nos fazendo refletir sobre nossos próprios conflitos, desejos e erros. Livremente inspirado no livro homônimo do médico psiquiatra Marcelo Veras, o filme faz um sensível mergulho nos paradoxos da reinserção da loucura no mundo em geral, subvertendo qualquer tentativa de reduzir as personagens retratadas a marionetes de questões envolvendo a sanidade mental. Fernanda Fontes Mora nasceu em Salvador e atualmente mora em Paris e realizou o mestrado em cinema na Sorbonne. Seu filme estreou no dia 16 de junho e teve a sala lotada, a crítica o recebeu muito bem. O Vozes da Voz entrevistou a cineasta sobre como foram as etapas de realização do filme.

V – Qual foi sua motivação ou inspiração de realizar esse filme?

F – A ideia surgiu a partir de uma conversa com Dr. Marcelo Veras, meu amigo, que me deu um exemplar do seu livro e me falou sobre o Criamundo. Ele foi diretor do Hospital Juliano Moreira e me contou um pouco da sua experiência.

Tudo começou em 2011. Vi que eu tinha uma oportunidade única diante de mim: aprender a conhecer personagens únicas. A filmagem começou em 2011; o filme foi finalizado em março de 2015. Contamos com o patrocínio cultural de duas empresas: a Petrobahia e a Carbocloro (através do artigo 1° A da Lei 8685/93, Lei do Audiovisual) que foram fundamentais para que o filme pudesse ser realizado. São empresas que reconhecem o investimento na cultura e que acreditaram no nosso projeto e na importância de se fazer um filme sobre essa temática. O resultado é um filme de 78 min, o meu primeiro longa metragem. Anteriormente havia realizado três curtas, dois de documentário e um de ficção.

V –  Quanto tempo durou a produção do filme?

F – 4 anos

V – Qual foi o maior obstáculo de produção do filme?

F – Enfrentamos muitas dificuldades. Da captação de recursos à nossa adaptação ao hospital, nada foi fácil.

V – O que mais te surpreendeu durante as filmagens?

 F- As surpresas no momento da produção, principalmente no primeiro mês, eram constantes. Chegamos a colocar uma Go Pro (câmera) dentro do carro para filmarmos as nossas conversas após o dia de filmagem. Não utilizei esse material, pois seria outro filme… Dentre as surpresas posso destacar o dia em que presenciamos o surto de Leonor, uma das personagens abordadas. Esse momento foi revelador e, de certa forma, influenciou na direção do filme. Até então ela assumia uma postura discreta e reservada. Ela nos concedia entrevistas, mas sempre fugia das questões muito pessoais. Nas entrevistas, ela falava genericamente sobre a vida, sobre questões abstratas. A equipe se questionava sobre a real loucura dela. Por isso mesmo, acreditava que ela poderia ser uma personagem interessante no filme, pois se enquadrava como louca, estava frequentando a Criamundo, mas fugia dos estereótipos do que consideramos louco.

Um determinado dia, vi Leonor em surto. Acho que foi uma realidade que veio à tona. Nos dias anteriores, acho que esse surto se anunciava, mas como não tínhamos experiência e conhecimento para identificar, achamos que ela estava mais aberta, alegre, mas não esperávamos o que iria acontecer. O que nos restava da nossa visão romantizada da loucura foi embora. A realidade passou a ser mais dura do que imaginávamos. Nesse mesmo dia ela nos revelou tudo que tentava esconder durante meses e despe-se completamente para as câmeras revelando, neste momento, tudo aquilo que parecia um tabu. Perdemos a ingenuidade.

V-  Qual a mensagem maior que você pretende com o filme “ A loucura entre nós”?

F – Acredito que o documentário contribui para a desestigmatização da loucura. Buscamos ter acesso à subjetividade dos nossos entrevistados, através da palavra, do contar as suas historias. Procuramos acessar o universo daquelas pessoas que seriam entrevistadas. Esse foi o meu primeiro longa, quatro anos se passaram do momento em que eu decidi filmar até o filme pronto. Acompanhei e estive envolvida em todos os momentos. Desde da elaboração do projeto, captação de recursos até a distribuição. Aprendi muita coisa com esse filme, com as pessoas que tive oportunidade de trabalhar. Mas o mais agregador foi esse processo de auto descoberta imposto ao fazer um filme sobre essa temática. Posso dizer que a confecção desse filme e os encontros que tive através dele foi um divisor de águas na minha vida. Foi um processo desafiador e perturbador.

No inicio eu havia uma visão ingênua sobre a loucura que foi se transformando durante o processo.  Entrar em um hospital, conhecer aquele mundo, conhecer aquelas pessoas, tanto os pacientes como os funcionários, é um eterno questionamento. Você é obrigada a se colocar em questão a todo o tempo. Sempre me perguntava: Por que tal pessoa me interessa? O que ela tem que me faz despertar curiosidade por ela? Por que a entrevista com fulano me incomodou? Essas são apenas algumas. Era uma enxurrada de perguntas e questões que vinham à tona que me faziam rever os meus próprios fantasmas e questões, conceitos… Acho que os outros integrantes da equipe passaram por processos similares.

V – Alguma experiência pessoal em relação ao tema do filme?

F – Eu nunca havia entrado em um hospital psiquiátrico anteriormente. O contato que havia tido com o universo do filme, ou seja, a loucura, vinha dos meus próprios questionamentos sobre a minha sanidade e observação de pessoas ao meu redor.

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O Rivotril é extremamente eficaz para amenizar crises fortes de ansiedade ou como medicação auxiliar em demais problemas psicológicos. Porém, seu uso caiu nas graças da população. O Brasil é o maior consumidor de Rivotril do mundo.
O que acontece para que um tarja preta se torne tão corriqueiro quanto qualquer analgésico?Este medicamento com certeza lhe é familiar. Você já deve ter ouvido falar sobre ele ou lido algo por aí. E é exatamente neste ponto que, de certa forma, a preocupação começa a surgir: não se pode negar que há algo de errado no fato de as pessoas chamarem um remédio tarja preta tão naturalmente pelo seu nome como se fosse uma marca corriqueira de alimentos. O Rivotril é um calmante extremamente eficaz para pacientes que sofrem com fortes crises de ansiedade, e só pode ser consumido por meio de prescrição médica. Entretanto, a substância caiu nas graças da população em geral, e passou a ser adquirida por meio de falsos receituários ou por sites na internet.

Os exageros não param por aí: informalmente, a ingestão do Rivotril tornou-se até um verbo. “Rivotrilar”. Além disso, o design de sua caixa estampa camisetas e cases para celulares. Em suma, o que deveria ser uma solução para quem realmente necessita de tratamento, caiu nas graças do público como um produto sem restrições de uso.

Como esta popularização é, provavelmente, fruto da desinformação, vamos aos dados importantes: O Rivotril é o nome comercial do clonazepam, ou seja, um ansiolítico, conhecido popularmente como calmante. Sua função é amenizar e tratar fortes quadros de ansiedade – ou como medicação auxiliar em demais problemas psicológicos – com grande eficiência. Por este motivo, a ingestão do remédio causa no paciente uma sensação de calma, torpor e a relaxante impressão de que nada está errado, reação semelhante a da embriaguez, por exemplo. É justamente pela eficácia de seus efeitos que ele só pode ser adquirido perante apresentação de um receituário especial prescrito um psiquiatra.

De acordo com Bruno Versolato, em uma matéria na Superinteressante de julho de 2010, o Rivotril ocupava, à época, a segunda colocação no ranking dos medicamentos mais vendidos no país, ultrapassando até a venda de simples analgésicos. Alguns anos depois, o Rivotril ainda se encontra em qualquer lista dos mais procurados. Alexandre Saadeh, professor do Instituto de Psiquiatria da USP, ainda em entrevista à Superinteressante, comenta que a prescrição da substância por médicos que não são especialistas em psicologia ou psiquiatria é responsável por uma parcela da popularização, já que ginecologistas, por exemplo, costumam indicar o medicamento para pacientes que têm fortes crises de TPM. Maurício Lima, diretor-médico da Roche – laboratório responsável pelo Rivotril -, reforça esta justificativa ao afirmar que grande parte dos brasileiros nem sequer tem acesso a psiquiatras.

Com tantas evidências de que há algo por trás do consumo irresponsável deste tarja preta, não é correto virar as costas a uma sociedade que, a título de comparação, repudia a legalização da maconha, mas não consegue enfrentar as dificuldades da vida – e, às vezes, nem sequer dormir – sem o uso (não autorizado) de Rivotril. É claro que ambas têm suas funcionalidades medicinais, e que deve ser considerado que cada caso é um caso – antes que qualquer substância seja demonizada sem a devida reflexão sobre -, porém, o Rivotril, se não usado com a devida orientação profissional, ou irresponsavelmente, também pode acarretar em más consequências.

Além dos benefícios proporcionados a quem o necessita de fato, o Rivotril pode causar dependência química ou emocional, afinal, a tarja preta em sua caixa tem um motivo para estar lá. No caso de dependência química, o efeito sofrido pelo corpo assemelha-se ao efeito causado por outros tipos de vício, como alcoolismo. Já na questão emocional, a pessoa passa a sempre carregar uma caixa do remédio consigo – “por precaução” -, e pode sofrer uma crise de abstinência se a medicação for tirada abruptamente. Em casos mais graves de dependência, há riscos de internação.

Não podemos negar: a eficácia do medicamento realmente é um atrativo para quem simplesmente quer aliviar as pequenas tensões do dia a dia, ou dormir à noite sem dificuldades. Entretanto, sem a prescrição de um psiquiatra, é comum que este público adquira e use o Rivotril à sombra da desinformação, onde o único conhecimento provém da propaganda boca a boca – como daquele vizinho ou vizinha, que ‘só consegue descansar após tomar a medicação’ -, ou ainda daquela celebridade que, também sem receituário, se aproveita do remédio. Desta forma, o Rivotril acaba se tornando uma espécie de símbolo de status, ou uma solução rápida para pequenos problemas.

A vida apresenta, em todos os seus aspectos, dificuldades. E isso é absolutamente normal. Buscar ajuda de um remédio tarja preta – sem que ele tenha sido prescrito – para amenizar estes problemas é fugir da vida, driblar o natural. Preguiça mesmo. Porém, não se esqueça: problemas emocionais podem ser normais, sim, mas quando o quadro se agrava, ou quando você sente que o lado ruim de suas emoções ultrapassou os limites da normalidade, não sinta receio de recorrer a um profissional.

Antes de fazer uso de qualquer remédio – principalmente os que possuem tarja preta – procure um especialista. Da próxima vez em que aquele dia depressivo chegar, veja um filme, leia um livro, medite. Não transforme um medicamento sério em um produto, um status. Faça com que sua mente seja ao mesmo tempo aberta e independente, ou seja: saiba o que pensar, onde se informar, como viver.

Alguma coisa estranha deve estar acontecendo quando um remédio contra a ansiedade – tarja preta, vendido apenas com retenção de receita – se torna o segundo medicamento mais consumido no Brasil. Esse remédio é o velho Rivotril, que tem 35 anos de mercado, mas nos últimos cinco escalou rapidamente o ranking dos mais vendidos até chegar ao segundo lugar. Em 2008, os brasileiros compraram nas farmácias 14 milhões de caixinhas do ansiolítico (o campeão de vendas é o anticoncepcional Microvlar, com 20 milhões de unidades). O Rivotril bate remédios de uso corriqueiro, segundo o IMS Health, instituto que audita a indústria farmacêutica. Vende mais que a pomada contra assaduras Hipoglós, o analgésico Tylenol e outros produtos que os consumidores colocam na cestinha sem saber se algum dia vão usar.

O sucesso espetacular do Rivotril no Brasil não ocorre com outros medicamentos da mesma categoria. A classe dos tranquilizantes é a sétima mais vendida no país – vende menos que anticoncepcionais, analgésicos, antirreumáticos e outros tipos de remédio. A clara preferência pelo Rivotril é um fenômeno brasileiro, que não se repete em outros países.

A escalada desse ansiolítico na lista dos mais vendidos sugere que a população em sofrimento psíquico pode ser maior do que se imagina. Transtornos de ansiedade e depressão são comuns nas grandes cidades, castigadas pela violência, pelo trânsito e pelo desemprego. Mas a pesquisa São Paulo Megacity, uma parceria do Hospital das Clínicas de São Paulo com a Organização Mundial da Saúde, revela que cerca de 40% dos moradores da região metropolitana sofre de algum tipo de transtorno psiquiátrico. É um porcentual que os próprios psiquiatras consideram “assustador” – e que depõe frontalmente contra a imagem de “nação feliz” que os estrangeiros e nós mesmos, brasileiros, gostamos de cultuar.

O segundo problema que leva à indicação excessiva do Rivotril é a precariedade do atendimento de saúde brasileiro, sobretudo de saúde mental. Há falta de psiquiatras no país. Consequentemente, as pessoas não recebem diagnóstico correto e não têm tratamento adequado de seus problemas. Quando o paciente chega ao consultório com enxaqueca, gastrite ou qualquer outra queixa que possa ter alguma relação com ansiedade, frequentemente ganha uma receita de Rivotril. “Os médicos fazem isso porque o remédio é barato (a caixinha mais cara custa R$ 13), antigo e seguro”, diz Luiz Alberto Hetem, vice-presidente da Associação Brasileira de Psiquiatria. “Mas ele pode mascarar quadros mais graves.” O ansiolítico acalma e atenua a ansiedade, mas os problemas subjacentes não são diagnosticados. “Grande parte das pessoas nem sequer sofre de ansiedade. A depressão é muito comum”, afirma a psiquiatra Mônica Magadouro.O terceiro fator que contribui para a venda de Rivotril é o que o psicanalista Plínio Montagna chama de “glamorização do ato de medicar-se”. No passado havia preconceito contra os remédios psiquiátricos. Recentemente, houve uma guinada cultural e eles passaram a ser vistos como resposta a todos os problemas da existência. Os médicos (sobretudo os que não são psiquiatras) receitam remédios psiquiátricos com total desenvoltura. Da parte dos pacientes, também existe a expectativa de que isso aconteça.Todos têm pressa.

“Emoções normais e importantes para a mente, como tristeza ou ansiedade em situação de perigo, são eliminadas porque incomodam”, diz Montagna, que é presidente da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo. Questões existenciais são tratadas como sintomas médico-psiquiátricos, com a colaboração de “uma avassaladora quantidade de dólares” gastos em publicidade pela indústria farmacêutica. “É frequente eu receber para tratamento pacientes com dosagens excessivas de medicação ou coquetéis de diversas substâncias, sem que os aspectos psicológicos tenham sido levados em consideração”, afirma o psicanalista, que também é formado em psiquiatria.

Por trás da precariedade do sistema de saúde e do modismo da medicação, existe a crescente incapacidade das pessoas – e dos médicos – em conviver com um dos sentimentos mais enraizados da psique humana, a ansiedade. Ela está lá desde os primórdios do homem, associada a temores e ameaças indefiníveis. Embora desagradável, é um dos motores da existência. Faz parte da nossa constituição evolutiva. “Ela é um estado de alerta, um estímulo para produzir. O contrário da ansiedade é a apatia”, diz o psicanalista Eduardo Boralli Rocha. Totalmente diferente dessa ansiedade benigna é a combinação explosiva de urgência, competição e sentimento de exclusão que caracteriza o nosso tempo.

“As pessoas sentem que em algum lugar está havendo uma festa para a qual elas não foram convidadas e têm de correr atrás”, diz Boralli. Sigmund Freud, o criador da psicanálise, dizia que a ansiedade era o sintoma de algo que não estava bem resolvido interiormente. Ele diferenciava entre a ansiedade produzida por uma situação externa real e aquela imaginada ou brutalmente amplificada por nossos medos interiores. A primeira não deveria ser medicada, mas ela tornou-se tão presente, tão avassaladora, que é isso que tem sido feito, em larga escala.

Fonte: O Contemporaneo

2a semana antimani ufba

Maio traz em suas raízes o registro das lutas pela garantia de direitos e melhoria das vidas de “gentes” e povos e, em especial, o 18 de maio marca o Dia da Luta Antimanicomial. Frente ao cenário político e institucional dos serviços de saúde, em qual a saúde mental de todos se encontra cada vez mais fragilizada e ausente, o 18 de maio de 2015 não pode passar despercebido! Este dia convoca para a celebração da luta, lembrar o passado e apontar as conquistas, para olhar o presente e notar os elementos e desafios que se colocam para a luta.

Nesse sentido, o Diretório Central dos/as Estudantes (DCE UFBA) e o Fórum Acadêmico de Saúde (Fas Ufba) estão organizando a II Semana da UFB(A)ntimanicomial (25 a 28 de maio), na tentativa de visibilizar cada vez mais a pauta e trazer à tona que a saúde mental é uma questão de todas e todos, sejam estudantes, professores/as, técnicos/as e terceirizados/as e questionar à Universidade quais as suas responsabilidades e compromissos com a Loucura!

Programação completa:

25 de maio (segunda-feira) – ONDINA ( AUDITÓRIO 2 DO PAF V )

18h: Apresentação do grupo de Teatro Os Insênicos
19h: Mesa sobre Luta Antimanicomial e os atuais desafios da saúde mental no Brasil:
– Carolina Pinheiro (Psicóloga / Mobiliza RAPS);
– Helisleide Bonfim (AMEA – Associação Metamorfose Ambulante)

26 de maio (terça-feira) – INSTITUTO DE CIÊNCIAS DA SAÚDE (ICS); Anfiteatro 2º andar

18h: Roda de conversa com o tema “Invisibilidade da Saúde Mental na Formação em Sáude”;
– Miguel Silveira (Psicólogo)
– Cláudia Miranda (Profª de Educação Física/FACED)

27 de maio (quarta-feira) – SÃO LÁZARO (AUDITÓRIO DO RAUL SEIXAS)

13h: Sessão CINELOUCO – Exibição de vídeos sobre Medicalização;
– Lygia Viegas (Psicóloga/ Profª da FACED UFBA/ Fórum de Medicalização da Educação e da Sociedade)

28 de maio (quinta-feira) – FACULDADE DE MEDICINA

13h: Mesa com tema “Saúde Mental, Universidade e Permanência”
15h: Encerramento Cultural com apresentação da Banda CAPS (usuários do CAPS AD de Pernambués)

Fonte: FAS UFBA

Por Mário Moro

Por Mário Moro

O dia 18 de maio marcou, mais uma vez, as ruas de São Paulo. Foi um encontro, um desfile, um movimento, um samba, uma só voz para tantas vozes que lutam por igualdade de direitos. Neste ano, a Frente Estadual Antimanicomial, trouxe o mote Rua e Resistência: Contra todas as Formas de Manicômio, que demarca o avanço na Saúde Mental quando pensamos nos fechamentos sucessivos dos manicômios e a abertura de modelos que substituem a instituição, mas que acorda para as práticas manicomiais não substituidas, os pensamentos manicomiais incrustados na sociedade e os formatos cada vez mais avançados que tentam retomar o modelo que exclui, encarcera e viola os direitos humanos. Desta forma a marcha denuncia as práticas de abuso medicamentoso, as comunidades terapêuticas, as práticas tecnológicas dos serviços de pesquisa em psiquiatria, as terceirizações na sáude que precarizam o cuidade e a atenção. A Fente Estadual Antimanicomial conta com um conjunto de coletivos, moimentos sociais, sindicatos, familiares, usuários e trabalhadores da saúde que se reuniram para organizar o ato e confeccionar uma carta que trouxe o tom de ” Lutar contra a mercantilização do Sofrimento Humano, contra a manutenção das instituições manicomiais, contra políticas privatizantes e autoritárias e contra a opressão nas fábricas, nas instituições de adolescentes, nos cárceres, a discriminação contra negros, homossexuais, índios, mulheres. Portanto lutar pelos direitos de cidadania das (os) usuárias (os) dos serviços de Saúde Mental por uma reforma sanitária democrática e popular; pela reforma agrária e urbana; pela organização livre e independente das trabalhadoras (es); e pela manutenção do direito à sindicalização e organização partidária, significa incorporar-se à luta de todas as cidadãs (ãos) por seus direitos à saúde, educação, justiça, assistência social e melhores condições de vida.” Esta carta foi protocolada nas secretarias de saúde municipais do Estado de São Paulo, na Secretaria do Estado.

Por Coletivo Sã Consciência

Por Coletivo Sã Consciência

A concentração começou às 12hrs no MASP, e a Cia Sansacroma organizou as atividades culturais. Além da confecção de cartazes para a Marcha, contamos com O CAPS Mauá e seu Maracatu, o CAPS Lídia com uma  vivência de dança, o Cordão Bibitantã com “Samba, do Brasil à África”, o CAPS São Matheus e seu samba, o Caps Itapeva com um desfile de moda ” Toque Mágico” com o tema Afro, a CIA SANSACROMA Companhia de dança que tem a pesquisa de linguagem chamada ‘Dança da Indignação’, em que usa o corpo para comunicar insatisfações e descontentamentos, o projeto Trecho 2.8 com a sessão de retratos das pessoas que estiveram na marcha e a cobertura jornalística. Entre estas atividades, outras também foram surgindo ao longo do ato.

mario 3

Por Coletivo Sã Consciência

Com a participação de 3 mil pessoas aproximadamente, caminhamos até a Secretaria do Estado de São Paulo, e pudemos, durante o ato, ouvir a falas e palavras de luta dos participantes. Entre os diversos tons, uma voz era unânime: dizemos NÃO a todas as formas de manicômio.

Por Coletivo Sã Consciência

Por Coletivo Sã Consciência

Por Marília Fernandez

Atores ficaram dentro de uma pequena cela para criticar lógica manicomial  Foto: Comunicação CRPRS

Atores ficaram dentro de uma pequena cela para criticar lógica manicomial Foto: Comunicação CRPRS

Em comemoração ao Dia da Luta Antimanicomial (18), o Conselho Regional de Psicologia (CRPRS) realizou no domingo (17) a ação “Prender não é Tratar” no Parque Farroupilha (Redenção) em Porto Alegre. Três atores dentro de uma pequena cela chamaram a atenção das pessoas que circulavam pelo Brique da Redenção contando suas histórias de exclusão e sofrimento. A ação teve o objetivo de divulgar para a sociedade a importância de uma sociedade livre de manicômios e que respeite as diferenças.

“Durante muitos anos, a atenção em saúde mental esteve centrada no modelo manicomial, em que as pessoas perdem suas referências de vida, são excluídas do convívio familiar, do trabalho, do local onde moram. A Reforma Psiquiátrica possibilitou que os antigos manicômios começassem a ser substituídos por uma rede de serviços na comunidade. Apesar disso, a lógica manicomial permanece existindo de diferentes formas”, explica a conselheira do CRPRS Mariana Allgayer.

Para o Conselho, usuários de drogas, pessoas em sofrimento psíquico ou consideradas fora dos padrões de normalidade devem ser cuidadas em liberdade, a partir do convívio com a família, amigos e comunidade, por meio de serviços públicos que garantam uma atenção humanizada e promovam a cidadania.

Ação atraiu olhares curiosos na Redenção  Foto: Comunicação CRPRS

Ação atraiu olhares curiosos na Redenção Foto: Comunicação CRPRS

Fonte: Sul 21

Por Flaviano Quaresma

Por Flaviano Quaresma

O cenário da Saúde Mental está alarmante. Essa é a opinião de Rosana Onocko-Campos, professora e pesquisadora da Faculdade de Ciências Médicas da Universidade Estadual de Campinas (FCM/Unicamp); onde coordena a comissão de pós-graduação; o programa de Residência Multiprofissional em Saúde Mental e Coletiva e o grupo de pesquisa Saúde Coletiva e saúde mental: Interfaces. Rosana também é membro da diretoria da Abrasco.

Os problemas, para a pesquisadora, juntam a precarização como um todo do Sistema Único de Saúde (SUS) com as questões inerentes para à Saúde Mental: a não implementação correta da rede de Centros de Atenção Psicossocial (CAPS); a resistência da oferta de leitos nos hospitais gerais e o abandono da reformulação do ensino de psiquiatria. O contraoponto positivo está na mudança do caráter das residências: “O único sopro de ar fresco parecem ser as residências multiprofissionais, recentemente expandidas”.

Para ela, somente com o abandono do modelo dos manicômios – ainda em vigência em diversos locais e em instituições públicas e privadas – e com a oferta de reais opções de atenção, em destaque para o tratamento comunitário, pode oferecer o alento tão desejado e necessário aos portadores de transtornos mentais.  Confira a entrevista.

Abrasco: Já se vão quase 30 anos do encontro de Bauru, que marcou o cenário da saúde mental no Brasil. Como você avalia a compreensão da sociedade a respeito do fim do modelo de internação?

Rosana Onocko-Campos: O Brasil vive um momento conservador, cujas causas não caberia aqui tentar analisar sociologicamente, mas momentos políticos são momentos, valores éticos tem uma permanência maior. Milhares de usuários têm dado seu depoimento sobre a desumanidade dos manicômios, a falta de respeito aos direitos pessoais e a coerção ao tratamento imposto e não negociado.

Internacionalmente, há fartas evidencias que apoiam o modelo comunitário de tratamento, já ninguém sustenta um modelo centrado na internação: ele é indesejável do ponto de vista dos direitos, mas também do reestabelecimento (recovery). Além do que, é ineficiente do ponto de vista do seu financiamento e da viabilidade do sistema de saúde como um todo.

+ Movimento Antimanicomial: Confira o roteiro de atividades, atos e eventos em mais de 22 cidades brasileiras até 22 de maio

Abrasco: Os opositores insistem em bater na tecla da redução de leitos para a Saúde Mental, ignorando o papel dos Centros de Apoio Psicossocial (CAPS). Como mostrar à sociedade a necessidade de inserir as pessoas que necessitam da assistência fora do modelo do manicômio?

Rosana Onocko-Campos: A eliminação do manicômio não deveria ser sinônimo de eliminação de leitos, somente da eliminação de leitos em hospitais psiquiátricos monovalentes, que a rigor nem mereceriam ser chamados de hospitais, pois não possuem nenhuma das tecnologias que justificariam uma assistência hospitalar (exames laboratoriais, monitoramento clínico estreito, etc.)

Devemos reconhecer que o número de CAPS III – com leitos – persiste insuficiente no país, e também há falta de leitos em hospitais gerais, que poderiam saldar essa carência. Mas isso só deveria nos fazer reclamar das autoridades maiores esforços e estímulos para a abertura de novos serviços, assim como capacitação para o correto funcionamento dos mesmos, e não a volta do modelo manicomial. Hoje, no Brasil, só defende o hospital psiquiátrico quem faz gordo negócio com ele. As pessoas reclamam para ter acesso, é isso é legítimo, pois sabemos que ainda há muita a realizar.

Temos resultados de pesquisas que mostram que onde o número de CAPS III é adequado as pessoas e suas famílias acham a rede de Saúde mental continente, e preferem o cuidado integral à crise no CAPS do que no Hospital. É uma pena o Ministério da Saúde do Brasil ter desistido deles.

Leia também: Isolar o doente mental não é uma atitude sã – Artigo de Rosana Onocko-Campos para o jornal O Globo

Abrasco: O bom funcionamento dos CAPS se dá dentro de um projeto de SUS, que sabemos ser vilipendiado por quem deveria cuidá-lo como tarefa constitucional. Como você avalia o atual momento dos CAPS?

Rosana Onocko-Campos: Tivemos um movimento de expansão importante entre 2003 e 2010. Houve importante inversão do financiamento: passou a se gastar mais dinheiro com os serviços comunitários do que com os hospitalares na Saúde Mental.  Mas o momento atual é preocupante.

Equipes fragilizadas, alta rotatividade de pessoal (pela crescente precarização do trabalho em saúde que atinge o SUS como um todo), interrupção de subsídios a dispositivos importantes para a sustentação clínica como a supervisão clínico-institucional, falta de educação permanente, tudo atenta contra a sustentação de uma proposta que é centrada no trabalho intensivo, altamente qualificado e integrado de equipes multiprofissionais.

A desistência de reformar a formação de psiquiatras também atenta contra a sustentação da proposta. O único sopro de ar fresco parecem ser as residências multiprofissionais, recentemente expandidas.

Abrasco: Por que continuar lutando pelo e festejando o 18 de maio?

Rosana Onocko-Campos: Porque ele marca um momento de virada no posicionamento clínico, ético e político dos interessados na saúde mental. Fundamentalmente usuários, trabalhadores e familiares.

Os desafios continuam imensos: precisamos melhorar o acesso ao tratamento, a qualidade do acompanhamento e manter viva a esperança de que seremos capazes de garantir um tratamento que propicie a retomada de uma vida com sentido (o que os usuários anglo-saxões chamaram derecovery) que, necessariamente, será diferente para cada um. Precisamos combater o estigma.

No Brasil ainda temos que resolver a persistência de uma desigualdade social extrema, de um usufruto restrito de direitos, de uma tentativa de prescrever a vida que os pobres devem ter. Isso é claro na questão das drogas: Pro que o consumo do crack pelos pobres tem de ser combatido, mas nossos políticos podem carregar cocaína em seus helicópteros sem consequências? Mas estou convicta de que a luta pela Reforma Psiquiátrica se inscreve nos grandes movimentos republicanos do Brasil do século XX que ainda desejamos sustentar no século XXI.

Fonte: Abrasco

Celebrando e reafirmando o Dia Nacional da Luta Antimanicomial neste 18 de maio, o grupo teatral “Os Insênicos” fez duas apresentações no teatro da FSBA em Salvador. O Vozes da Voz esteve na primeira apresentação a tarde que contou com a presença de usuários de diversos CAPS de Salvador, além de hospitais psiquiátricos como o Juliano Moreira. Os usuários lotaram o teatro com capacidade para 500 pessoas.

Teatro lotado para assistir os Insênicos

Teatro lotado para assistir os Insênicos

“Os Insênicos” é formado por usuários do sistema de saúde mental que se juntaram através da parceria da AMEA (Associação Metamorfose Ambulante), de familiares e usuários dos serviços de saúde mental na Bahia. Formado em 2010, o projeto foi idealizado pela atriz e psicóloga Renata Berenstein. Em seu primeiro ano, foi realizada uma oficina de teatro de três meses no Espaço Xisto que resultou na construção coletiva de um espetáculo. A estreia dos Insênicos foi na Sala do Coro do TCA, em Junho de 2010.

Os Insênicos em ação

Os Insênicos em ação

O espetáculo “Balada de amor” encerrou sua temporada hoje em grande estilo. Sob as luzes do grande palco, “Os Insênicos” fizeram uma belíssima apresentação que intercalou momentos de ficção; de uma turma bem heterogênea e divertida que se encontrava sempre num karaokê até momentos de pura realidade, quando os atores iam para o canto do palco contar suas histórias pessoais, frisando o amor em suas vidas.

Os atores dividem histórias emocionantes com o público

Os atores dividem histórias emocionantes com o público

“Balada de amor” trata do assunto de forma muito sensível e, ao mesmo tempo, cômica. O roteiro é feito pelo grupo que conseguiu levar drama e comédia ao espectador de forma leve e intensa. Os atores têm total entrega aos personagens que variam entre os ficcionais e eles mesmos. Os figurinos exaltam a forte cultura brasileira, trazendo cores vivas e quentes. A dona do karaokê usa uma camisa do Flamengo, enquanto um cliente a do Brasil. O karaokê é frequentado por todo tipo de gente de puta à noiva abandonada e travesti, trazendo uma rica diversidade de pessoas comuns, porém brilhantes, assim como seus intérpretes.

O karaokê é o point de "Balada de amor"

O karaokê é o point de “Balada de amor”

Após o espetáculo, a equipe do documentário em produção “Sem Tarja” – filme que vai discutir a indústria farmacêutica na saúde mental – gravou depoimentos de alguns dos atores para o filme.  Apesar de suas trajetórias diversas, todos compartilham do mesmo sentimento sobre o efeito transformador do teatro em suas vidas. Em muitos deles estão as marcas do modelo asilar, das instituições psiquiátricas que passaram e doem até hoje, mas o teatro os fez renascer. Alguns dos atores nem estão mais fazendo tratamento medicamentoso graças à esta arte.

Atores deram depoimento para o filme "Sem Tarja"

Atores deram depoimento para o filme “Sem Tarja”

“Os Insênicos” é um trabalho fundamental para a vida dos atores, mas, principalmente, para a sociedade que vive fora dos muros da saúde mental. Ao se deparar com um elenco tão visceral e em sintonia, com histórias belas e doloridas que conseguem tirar lágrimas e gargalhadas de seu público é impossível não parar de achar que o louco tem que ser contido e não tem a capacidade de ser o protagonista da sua própria vida. Palmas para “Os Insênicos” e aguardamos ansiosos o próximo espetáculo!

Por Rafaela Uchoa

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