Feeds:
Posts
Comentários
Por Mário Moro

Por Mário Moro

O dia 18 de maio marcou, mais uma vez, as ruas de São Paulo. Foi um encontro, um desfile, um movimento, um samba, uma só voz para tantas vozes que lutam por igualdade de direitos. Neste ano, a Frente Estadual Antimanicomial, trouxe o mote Rua e Resistência: Contra todas as Formas de Manicômio, que demarca o avanço na Saúde Mental quando pensamos nos fechamentos sucessivos dos manicômios e a abertura de modelos que substituem a instituição, mas que acorda para as práticas manicomiais não substituidas, os pensamentos manicomiais incrustados na sociedade e os formatos cada vez mais avançados que tentam retomar o modelo que exclui, encarcera e viola os direitos humanos. Desta forma a marcha denuncia as práticas de abuso medicamentoso, as comunidades terapêuticas, as práticas tecnológicas dos serviços de pesquisa em psiquiatria, as terceirizações na sáude que precarizam o cuidade e a atenção. A Fente Estadual Antimanicomial conta com um conjunto de coletivos, moimentos sociais, sindicatos, familiares, usuários e trabalhadores da saúde que se reuniram para organizar o ato e confeccionar uma carta que trouxe o tom de ” Lutar contra a mercantilização do Sofrimento Humano, contra a manutenção das instituições manicomiais, contra políticas privatizantes e autoritárias e contra a opressão nas fábricas, nas instituições de adolescentes, nos cárceres, a discriminação contra negros, homossexuais, índios, mulheres. Portanto lutar pelos direitos de cidadania das (os) usuárias (os) dos serviços de Saúde Mental por uma reforma sanitária democrática e popular; pela reforma agrária e urbana; pela organização livre e independente das trabalhadoras (es); e pela manutenção do direito à sindicalização e organização partidária, significa incorporar-se à luta de todas as cidadãs (ãos) por seus direitos à saúde, educação, justiça, assistência social e melhores condições de vida.” Esta carta foi protocolada nas secretarias de saúde municipais do Estado de São Paulo, na Secretaria do Estado.

Por Coletivo Sã Consciência

Por Coletivo Sã Consciência

A concentração começou às 12hrs no MASP, e a Cia Sansacroma organizou as atividades culturais. Além da confecção de cartazes para a Marcha, contamos com O CAPS Mauá e seu Maracatu, o CAPS Lídia com uma  vivência de dança, o Cordão Bibitantã com “Samba, do Brasil à África”, o CAPS São Matheus e seu samba, o Caps Itapeva com um desfile de moda ” Toque Mágico” com o tema Afro, a CIA SANSACROMA Companhia de dança que tem a pesquisa de linguagem chamada ‘Dança da Indignação’, em que usa o corpo para comunicar insatisfações e descontentamentos, o projeto Trecho 2.8 com a sessão de retratos das pessoas que estiveram na marcha e a cobertura jornalística. Entre estas atividades, outras também foram surgindo ao longo do ato.

mario 3

Por Coletivo Sã Consciência

Com a participação de 3 mil pessoas aproximadamente, caminhamos até a Secretaria do Estado de São Paulo, e pudemos, durante o ato, ouvir a falas e palavras de luta dos participantes. Entre os diversos tons, uma voz era unânime: dizemos NÃO a todas as formas de manicômio.

Por Coletivo Sã Consciência

Por Coletivo Sã Consciência

Por Marília Fernandez

Atores ficaram dentro de uma pequena cela para criticar lógica manicomial  Foto: Comunicação CRPRS

Atores ficaram dentro de uma pequena cela para criticar lógica manicomial Foto: Comunicação CRPRS

Em comemoração ao Dia da Luta Antimanicomial (18), o Conselho Regional de Psicologia (CRPRS) realizou no domingo (17) a ação “Prender não é Tratar” no Parque Farroupilha (Redenção) em Porto Alegre. Três atores dentro de uma pequena cela chamaram a atenção das pessoas que circulavam pelo Brique da Redenção contando suas histórias de exclusão e sofrimento. A ação teve o objetivo de divulgar para a sociedade a importância de uma sociedade livre de manicômios e que respeite as diferenças.

“Durante muitos anos, a atenção em saúde mental esteve centrada no modelo manicomial, em que as pessoas perdem suas referências de vida, são excluídas do convívio familiar, do trabalho, do local onde moram. A Reforma Psiquiátrica possibilitou que os antigos manicômios começassem a ser substituídos por uma rede de serviços na comunidade. Apesar disso, a lógica manicomial permanece existindo de diferentes formas”, explica a conselheira do CRPRS Mariana Allgayer.

Para o Conselho, usuários de drogas, pessoas em sofrimento psíquico ou consideradas fora dos padrões de normalidade devem ser cuidadas em liberdade, a partir do convívio com a família, amigos e comunidade, por meio de serviços públicos que garantam uma atenção humanizada e promovam a cidadania.

Ação atraiu olhares curiosos na Redenção  Foto: Comunicação CRPRS

Ação atraiu olhares curiosos na Redenção Foto: Comunicação CRPRS

Fonte: Sul 21

Por Flaviano Quaresma

Por Flaviano Quaresma

O cenário da Saúde Mental está alarmante. Essa é a opinião de Rosana Onocko-Campos, professora e pesquisadora da Faculdade de Ciências Médicas da Universidade Estadual de Campinas (FCM/Unicamp); onde coordena a comissão de pós-graduação; o programa de Residência Multiprofissional em Saúde Mental e Coletiva e o grupo de pesquisa Saúde Coletiva e saúde mental: Interfaces. Rosana também é membro da diretoria da Abrasco.

Os problemas, para a pesquisadora, juntam a precarização como um todo do Sistema Único de Saúde (SUS) com as questões inerentes para à Saúde Mental: a não implementação correta da rede de Centros de Atenção Psicossocial (CAPS); a resistência da oferta de leitos nos hospitais gerais e o abandono da reformulação do ensino de psiquiatria. O contraoponto positivo está na mudança do caráter das residências: “O único sopro de ar fresco parecem ser as residências multiprofissionais, recentemente expandidas”.

Para ela, somente com o abandono do modelo dos manicômios – ainda em vigência em diversos locais e em instituições públicas e privadas – e com a oferta de reais opções de atenção, em destaque para o tratamento comunitário, pode oferecer o alento tão desejado e necessário aos portadores de transtornos mentais.  Confira a entrevista.

Abrasco: Já se vão quase 30 anos do encontro de Bauru, que marcou o cenário da saúde mental no Brasil. Como você avalia a compreensão da sociedade a respeito do fim do modelo de internação?

Rosana Onocko-Campos: O Brasil vive um momento conservador, cujas causas não caberia aqui tentar analisar sociologicamente, mas momentos políticos são momentos, valores éticos tem uma permanência maior. Milhares de usuários têm dado seu depoimento sobre a desumanidade dos manicômios, a falta de respeito aos direitos pessoais e a coerção ao tratamento imposto e não negociado.

Internacionalmente, há fartas evidencias que apoiam o modelo comunitário de tratamento, já ninguém sustenta um modelo centrado na internação: ele é indesejável do ponto de vista dos direitos, mas também do reestabelecimento (recovery). Além do que, é ineficiente do ponto de vista do seu financiamento e da viabilidade do sistema de saúde como um todo.

+ Movimento Antimanicomial: Confira o roteiro de atividades, atos e eventos em mais de 22 cidades brasileiras até 22 de maio

Abrasco: Os opositores insistem em bater na tecla da redução de leitos para a Saúde Mental, ignorando o papel dos Centros de Apoio Psicossocial (CAPS). Como mostrar à sociedade a necessidade de inserir as pessoas que necessitam da assistência fora do modelo do manicômio?

Rosana Onocko-Campos: A eliminação do manicômio não deveria ser sinônimo de eliminação de leitos, somente da eliminação de leitos em hospitais psiquiátricos monovalentes, que a rigor nem mereceriam ser chamados de hospitais, pois não possuem nenhuma das tecnologias que justificariam uma assistência hospitalar (exames laboratoriais, monitoramento clínico estreito, etc.)

Devemos reconhecer que o número de CAPS III – com leitos – persiste insuficiente no país, e também há falta de leitos em hospitais gerais, que poderiam saldar essa carência. Mas isso só deveria nos fazer reclamar das autoridades maiores esforços e estímulos para a abertura de novos serviços, assim como capacitação para o correto funcionamento dos mesmos, e não a volta do modelo manicomial. Hoje, no Brasil, só defende o hospital psiquiátrico quem faz gordo negócio com ele. As pessoas reclamam para ter acesso, é isso é legítimo, pois sabemos que ainda há muita a realizar.

Temos resultados de pesquisas que mostram que onde o número de CAPS III é adequado as pessoas e suas famílias acham a rede de Saúde mental continente, e preferem o cuidado integral à crise no CAPS do que no Hospital. É uma pena o Ministério da Saúde do Brasil ter desistido deles.

Leia também: Isolar o doente mental não é uma atitude sã – Artigo de Rosana Onocko-Campos para o jornal O Globo

Abrasco: O bom funcionamento dos CAPS se dá dentro de um projeto de SUS, que sabemos ser vilipendiado por quem deveria cuidá-lo como tarefa constitucional. Como você avalia o atual momento dos CAPS?

Rosana Onocko-Campos: Tivemos um movimento de expansão importante entre 2003 e 2010. Houve importante inversão do financiamento: passou a se gastar mais dinheiro com os serviços comunitários do que com os hospitalares na Saúde Mental.  Mas o momento atual é preocupante.

Equipes fragilizadas, alta rotatividade de pessoal (pela crescente precarização do trabalho em saúde que atinge o SUS como um todo), interrupção de subsídios a dispositivos importantes para a sustentação clínica como a supervisão clínico-institucional, falta de educação permanente, tudo atenta contra a sustentação de uma proposta que é centrada no trabalho intensivo, altamente qualificado e integrado de equipes multiprofissionais.

A desistência de reformar a formação de psiquiatras também atenta contra a sustentação da proposta. O único sopro de ar fresco parecem ser as residências multiprofissionais, recentemente expandidas.

Abrasco: Por que continuar lutando pelo e festejando o 18 de maio?

Rosana Onocko-Campos: Porque ele marca um momento de virada no posicionamento clínico, ético e político dos interessados na saúde mental. Fundamentalmente usuários, trabalhadores e familiares.

Os desafios continuam imensos: precisamos melhorar o acesso ao tratamento, a qualidade do acompanhamento e manter viva a esperança de que seremos capazes de garantir um tratamento que propicie a retomada de uma vida com sentido (o que os usuários anglo-saxões chamaram derecovery) que, necessariamente, será diferente para cada um. Precisamos combater o estigma.

No Brasil ainda temos que resolver a persistência de uma desigualdade social extrema, de um usufruto restrito de direitos, de uma tentativa de prescrever a vida que os pobres devem ter. Isso é claro na questão das drogas: Pro que o consumo do crack pelos pobres tem de ser combatido, mas nossos políticos podem carregar cocaína em seus helicópteros sem consequências? Mas estou convicta de que a luta pela Reforma Psiquiátrica se inscreve nos grandes movimentos republicanos do Brasil do século XX que ainda desejamos sustentar no século XXI.

Fonte: Abrasco

Celebrando e reafirmando o Dia Nacional da Luta Antimanicomial neste 18 de maio, o grupo teatral “Os Insênicos” fez duas apresentações no teatro da FSBA em Salvador. O Vozes da Voz esteve na primeira apresentação a tarde que contou com a presença de usuários de diversos CAPS de Salvador, além de hospitais psiquiátricos como o Juliano Moreira. Os usuários lotaram o teatro com capacidade para 500 pessoas.

Teatro lotado para assistir os Insênicos

Teatro lotado para assistir os Insênicos

“Os Insênicos” é formado por usuários do sistema de saúde mental que se juntaram através da parceria da AMEA (Associação Metamorfose Ambulante), de familiares e usuários dos serviços de saúde mental na Bahia. Formado em 2010, o projeto foi idealizado pela atriz e psicóloga Renata Berenstein. Em seu primeiro ano, foi realizada uma oficina de teatro de três meses no Espaço Xisto que resultou na construção coletiva de um espetáculo. A estreia dos Insênicos foi na Sala do Coro do TCA, em Junho de 2010.

Os Insênicos em ação

Os Insênicos em ação

O espetáculo “Balada de amor” encerrou sua temporada hoje em grande estilo. Sob as luzes do grande palco, “Os Insênicos” fizeram uma belíssima apresentação que intercalou momentos de ficção; de uma turma bem heterogênea e divertida que se encontrava sempre num karaokê até momentos de pura realidade, quando os atores iam para o canto do palco contar suas histórias pessoais, frisando o amor em suas vidas.

Os atores dividem histórias emocionantes com o público

Os atores dividem histórias emocionantes com o público

“Balada de amor” trata do assunto de forma muito sensível e, ao mesmo tempo, cômica. O roteiro é feito pelo grupo que conseguiu levar drama e comédia ao espectador de forma leve e intensa. Os atores têm total entrega aos personagens que variam entre os ficcionais e eles mesmos. Os figurinos exaltam a forte cultura brasileira, trazendo cores vivas e quentes. A dona do karaokê usa uma camisa do Flamengo, enquanto um cliente a do Brasil. O karaokê é frequentado por todo tipo de gente de puta à noiva abandonada e travesti, trazendo uma rica diversidade de pessoas comuns, porém brilhantes, assim como seus intérpretes.

O karaokê é o point de "Balada de amor"

O karaokê é o point de “Balada de amor”

Após o espetáculo, a equipe do documentário em produção “Sem Tarja” – filme que vai discutir a indústria farmacêutica na saúde mental – gravou depoimentos de alguns dos atores para o filme.  Apesar de suas trajetórias diversas, todos compartilham do mesmo sentimento sobre o efeito transformador do teatro em suas vidas. Em muitos deles estão as marcas do modelo asilar, das instituições psiquiátricas que passaram e doem até hoje, mas o teatro os fez renascer. Alguns dos atores nem estão mais fazendo tratamento medicamentoso graças à esta arte.

Atores deram depoimento para o filme "Sem Tarja"

Atores deram depoimento para o filme “Sem Tarja”

“Os Insênicos” é um trabalho fundamental para a vida dos atores, mas, principalmente, para a sociedade que vive fora dos muros da saúde mental. Ao se deparar com um elenco tão visceral e em sintonia, com histórias belas e doloridas que conseguem tirar lágrimas e gargalhadas de seu público é impossível não parar de achar que o louco tem que ser contido e não tem a capacidade de ser o protagonista da sua própria vida. Palmas para “Os Insênicos” e aguardamos ansiosos o próximo espetáculo!

Por Rafaela Uchoa

caps

A mudança da lógica de atendimento ao paciente com transtornos mentais no SUS é fruto de um processo social complexo e inclusivo. O resultado desse amplo debate com especialistas, entidades representativas, os movimentos de luta antimanicomial, incluindo o protagonismo de usuários e familiares, foi a promulgação da Lei 10.2016 em abril de 2011, após mais de uma década de discussão, instituindo efetivamente a Reforma Psiquiátrica como política do Estado Brasileiro.

Substituindo o obsoleto modelo de internação hospitalar, responsável por anos de dor e exclusão para pacientes e suas famílias, a nova política de atenção passou a priorizar serviços comunitários e multidisciplinares, garantindo o cuidado com liberdade e permitindo a efetivação da cidadania das pessoas com transtornos mentais e problemas relacionados ao uso de álcool e drogas.

Esta nova política nacional transformou a saúde mental no Brasil na última década. Neste processo, destaca-se a adoção do território como conceito organizador da atenção, a contínua expansão dos Centros de Atenção Psicossocial (CAPS), em suas diferentes modalidades – CAPS I, II, III, CAPSad e CAPSi – ampliando o acesso e a interiorização de serviços em todo o Brasil; a redução significativa do número de leitos e de hospitais psiquiátricos; a criação do Programa de Volta para Casa, com o auxílio-reabilitação psicossocial instituído pela Lei 10.708/2003; e a reversão, desde 2006, dos recursos financeiros, anteriormente destinados quase exclusivamente à assistência hospitalar.

Os avanços são notáveis: em 12 anos, o número de CAPS no Brasil aumentou mais de 400%, passando de 424 CAPS em 2002 para 2.209 CAPS atualmente. A criação dos CAPS Álcool e Outras Drogas representa a crescente preocupação da sociedade sobre o tema, com a rede trabalhando na perspectiva de redução de danos.

O Ministério da Saúde, em conjunto com estados e municípios, também criou novos leitos em enfermarias especializadas (hospitais gerais), nos 69 CAPS AD que funcionam 24 horas e nas 61 novas unidades de acolhimento criadas. A rede de atendimento a dependentes químicos ainda é composta por 131 Consultórios na Rua, que atendem aos usuários nos locais de uso e pelos mais de 600 Serviços Residenciais Terapêuticos (SRT), implantados para responder às necessidades de moradia de pessoas com transtornos psicológicos graves, que ficaram longo período internadas. Eles garantem residência e ajudam na reinserção dos moradores na rede social existente (trabalho, lazer e educação). No final de 2014, foram lançados diversos protocolos de suporte básico e avançado de vida, voltados para o Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (SAMU). Entre eles, protocolos para o Manejo da Crise em Saúde Mental, situações de agitação e agressividade, tentativa e risco de suicídio, bem como intoxicação e abstinência alcoólica e intoxicação por drogas estimulantes. Os protocolos serão acompanhados de capacitação para os profissionais do SAMU, o que vai gerar um impacto positivo para o acesso e a assistência.

É de certa forma esperado que setores conservadores e com visão reducionista da questão da saúde mental, acostumados a obter o monopólio intelectual e prático do atendimento, sejam resistentes à mudança. A reforma psiquiátrica, de fato, exige uma profunda transformação das instituições.

Novas diretrizes colidem numa arena em que visões de mundo concorrentes se enfrentam: a garantia da cidadania e de direitos universais, numa construção coletiva permanente, frente o confinamento e o estigma abstrato de “doença” imposto aos pacientes.

No estabelecimento da Rede de Atenção Psicossocial, as ações de saúde mental passaram a fazer parte do conjunto de exigências fundamentais para a instituição das regiões de saúde. A RAPS conta com componentes da atenção básica; atenção psicossocial; atenção de urgência e emergência; atenção residencial de caráter transitório; atenção hospitalar em hospitais gerais; estratégias de desinstitucionalização e reabilitação psicossocial. É nesse contexto que se inserem o Projeto Terapêutico Singular e as diversas formas de ação.

O reconhecimento do sucesso dessa política se dá na prática e também pelo interesse de países como Equador, Paraguai, Costa Rica, Honduras, Haiti e Angola, que já buscaram cooperação técnica com o Brasil para aperfeiçoar as suas políticas de saúde mental.

Somente o constante desenvolvimento dessa política, estabelecida em parceria com todos os principais agentes envolvidos, poderá oferecer a possibilidade de um tratamento verdadeiramente eficaz, com cuidado territorial, humanizado, integral e multiprofissional, sob a lógica interdisciplinar e intersetorial, com participação e controle social de usuários e de familiares.

Defender o retorno a um modelo arcaico de atenção é pactuar com a barbárie praticada durante décadas pelos manicômios tradicionais, algo impensável e incompatível com a sociedade atual.

* Maurício Angelo é jornalista e foi assessor do Ministério da Saúde, atendendo também a área de Saúde Mental, Álcool e Outras Drogas, que inclui o programa “Crack, É Possível Vencer”. 

Por Maurício Angelo

comu

Tidos como solução para recuperar viciados em drogas, as CTs falham ao ser aparelhadas por pastores

Em um momento de ajuste fiscal, onde há corte em vários lados, um setor verá triplicado seus investimentos pelo governo neste ano. Tratam-se das Comunidades Terapêuticas, essas casas e fazendas usadas no “tratamento de dependentes de drogas”. Antes de falar delas, deixo que um próprio detento conte sua história, com sua grafia e gramática particular.

“Temos mais de 50 pessoas em cárcere privado onde a família não quer em casa e os colocaram confinados como coelhos e estão todos amontoados. Ainda como o pior de tudo somos chamados de lixo, esquesitos, mocorongos, bicha, vagabundos, lesados e outros diseres pelo dono, que acaba de vez com nós. Sei que a nossa família paga um bom preço para nós estarmos aqui internado, necessitamos de ajuda mas do jeito que vai não dá.”

O email, com o título “Ajuda Pelo amor de Deus”, triste e ironicamente, chegou em minha caixa postal na mesma semana em que as CTs foram regulamentadas no Conselho Nacional de Políticas sobre Drogas do Ministério da Justiça . Venceu o lobby das CTs e da Frente Parlamentar das CTs, contra os que defendem uma moderna abordagem de saúde pública.

O que nasceu como tentativa genuína de “solução” para o “vício nas drogas”, quando foram criadas há algumas décadas, tornou-se a versão século 21 dos manicômios. Virou também um negócio lucrativo que envolve religiosos e políticos – alguns desavisados e bem intencionados, grande parte deles picaretas.

O email me fez lembrar o filme Bicho de Sete Cabeças, de Lais Bodansky, que conta a história de um “maconheiro” internado pelos pais, vivida pelo ator Rodrigo Santoro. O enredo se baseia em fatos reais passados em um manicômio.

Nos tempos atuais, o que se vê nas CTs é uma abordagem obsoleta junto a pessoas com uso problemático de drogas. Especialistas de saúde convergem para políticas como a do CAPS, os Centros de Atenção Psicossocial Álcool e Drogas do SUS, que funcionam na rede pública, em Unidades de Acolhimento ou em ambulatórios de rua.

Nas políticas de saúde pública prevalece uma abordagem de redução de danos, que se baseia no fundamento de que o usuário não deixará necessariamente a droga do dia para a noite e que se trata de uma uma adição química que precisa ser tratada como tal. Ou seja, encurralar e tentar curar à força não funciona.

Falando em números, com a regulamentação as CTs passarão a receber cerca de R$ 300 milhões no próximo biênio, o maior orçamento da história da Secretaria Nacional Antidrogas (Senad), três vezes mais de tudo que já receberam (lembremos que hoje já é um bom negócio!). Enquanto o movimento antiproibicionista ainda engatinha rumo à uma revisão da política de drogas no Brasil, os fundamentalistas e a bancada do negócio fazem à festa às custas de pessoas que precisam de ajuda especializada.

Em muitas CTs, os internos são submetidos à tortura proselitista, sobretudo de pastores evangélicos que tentam curá-los do “vício” com a mesma determinação que tentariam curar um gay se assim o pudessem. Neste caso, ainda cobram, já que muitas famílias gastam boa parte de sua renda na tentativa de “salvar” os filhos.

Mas apenas donos de CTs não teriam poder suficiente para conquistar tamanha façanha (lembrando que, neste caso, setores do próprio governo foram críticos à regulamentação no Conad, caso do Ministério da Saúde e da Secretaria de Direitos Humanos da Presidência da República).

A regulamentação só passou no Conselho porque teve apoio da Frente de Defesa das Comunidades Terapeuticas no Congresso, composta por deputados como Celso Russomano, Delegado Éder Mauro, Bruno Covas, Delegado Edson Moreira, Mário Negromonte, Pastor Eurico e Sérgio Reis. Há gente de todos os partidos na tal frente, dos PQualquerCoisa ao PSOL, passando por PSDB e PT.

Na seara da esquerda, surpreende que deputados como Alessandro Molon (PT), Luiza Erundina (PSB), Edmilson Rodrigues (PSOL) e Jô Moraes (PCdoB) andem apoiando esta história. Confira a lista completa.

Como bem colocou em nota o Conselho Regional de Serviço Social de MG, a palavra é “retrocesso”. Agora, o que resta é a redução de danos.

*Maurício Moraes é militante de direitos humanos, da causa LGBT e do antiproibicionismo. É filiado ao PT e secretário de governo de Araçoiaba da Serra (SP).

Fonte: Carta Capital

simposio enfermagem

Seguir

Obtenha todo post novo entregue na sua caixa de entrada.